quarta-feira, 14 de maio de 2008

Uma máscara que cai

Há uma crônica do Luis Fernando Veríssimo, esse grande escritor e cronista brasileiro, cujo título é Racismo, onde ele, de maneira primorosa, faz um retrato fiel e bem-humorado (do tipo “rir pra não chorar”) da situação do negro no Brasil, através de um diálogo entre um homem branco e outro negro. Conversa vai, conversa vem, e o homem branco da crônica faz a declaração chave sobre o racismo brasileiro:

– E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.

Não se choque com a afirmação. Não é verdade? No nosso país, onde o discurso demagógico e hipócrita da sociedade proclama aos quatro cantos que “aqui não há racismo”, a realidade é que só não há um conflito maior entre brancos e negros justamente porque a doutrina oficial de congraçamento racial – arbitrariamente forjada pela experiência de quatro séculos de escravidão – desdenha de qualquer inconformidade por parte das vítimas e não permite que as desigualdades gritantes e a discriminação velada sejam discutidas de maneira adequada e proporcional ao problema. Como explica Milton Santos, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, “Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes, deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária”. Ou seja: como é o negro que desde sempre sustenta os hábitos nada solidários da elite brasileira através de sua exploração secular, vamos fingir que nada está acontecendo; assim, nada precisará mudar. Oba!

Brincadeira à parte, basta lembrarmos de toda polêmica que se criou em torno das cotas para negros nas universidades públicas e teremos uma pequena amostra do tipo de preconceito racial que há no Brasil. Muito se falou, muito se debateu, algumas universidades adotaram o sistema de cotas, outras não, algumas autoridades criticaram, outras aplaudiram, mas o fato é que, de uma perspectiva mais ampla, nada vai mudar de verdade. Porque o problema não é o modo de seleção das universidades; não é o vestibular que é exclusivo: é todo o sistema! Enquanto não for oferecida uma educação de base de qualidade à população mais pobre (constituída por 70% de negros) para que eles possam competir de igual pra igual com seus concorrentes ricos (em sua maioria, brancos), de nada adiantará, isoladamente, distribuir vagas das faculdades públicas aos negros como se fosse uma esmola que se dá a um indigente na rua. Esse tipo de determinação apenas torna mais visíveis as frágeis relações sociais que regem o funcionamento da sociedade brasileira, opondo de maneira mais aberta os interesses raciais diversos e despertando o adormecido monstro do racismo.

Além disso, há mais, muito mais... Para não me perder em incontáveis exemplos sórdidos de discriminação ou em tortuosas e eternas estatísticas evidenciadoras, fico somente com a seguinte, que cabe para ambas as situações: ano passado, o Índice de Desenvolvimento Humano, ou IDH, medido pela ONU, revelou de forma embasada numericamente a discrepante distância que há entre o “Brasil Branco” e o “Brasil Negro”. Embora tenham sido constatadas melhoras em ambos os “Brasis”, eles afastaram-se ainda mais na classificação mundial. O “‘Brasil Branco’, em 1991, ocupava a 65ª ou 66ª posição entre as nações mais desenvolvidas no aspecto social; em 2000, chegou à 44ª posição. Já o ‘Brasil negro’, que em 1991 estava na 101ª ou 102ª posição, caiu em 2000 para a 104ª ou 105ª. A diferença entre os dois "países" passou de 36 para 60 posições no ranking do IDH em apenas 10 anos”. Quer dizer: só um cego (leia-se aqui: ignorante) pra não ver que o nosso queridíssimo país é, sim, uma nação rigorosamente racista e hipócrita, que consente a opressão e a segregação racial pois é conveniente a sua parcela branca e detentora do poder a postergação da exploração da população negra para o continuísmo dos privilégios dessa mesma classe exploradora e para a manutenção desse mesmo poder mesquinho.

Enfim. Eis aqui as tristes reflexões e constatações vergonhosas que faço de maneira tão simplória um dia após o Brasil “comemorar” 120 anos de abolição da escravatura.

*para maiores informações:
Ser negro no Brasil hoje;
Desigualdades;
120 anos da Lei Áurea.

2 comentários:

Secoelho disse...

Não pude deixar de vir correndo ler o seu novo texto após ficar sabendo da sua existência. :]

Concordo plenamente com o senhor, Gato de S., o Brasil é sim um país preconceituoso e hipócrita, combinação que resulta no pior tipo possível. No Brasil, os "pardos" e "morenos" só viram negros na entrevista pras cotas. -.-'

camila chaves disse...

poxa, tentei mil vezes postar um comentário nesse texto mas suspeito que eu estava sofrendo boicote. será que só porque meu cabelo é enroladinho? hum hum. rs.

brincadeiras à parte, teu texto fora muito oportuno, afinal, no ano em que se completa 120 anos de abolição da escravatura, os negros não têm nada o que comemorar.

no brasil, vivemos a falácia de uma democracia racial. tenta-se falar que todos devem ser tratados de forma igual quando, na verdade as diferenças são gritantes e precisam ser consideradas.

sobre as cotas, concordo contigo em partes: concordo inteiramente que o problema maior não esteja na divisão das vagas no ensino superior, mas sim que no ensino base.

só que, como por aqui a gente sabe que somente uma revolução seria capaz de causar tal ruptura e trazer essa transformação, penso que as cotas são necessárias para o momento.

penso que dizer que esta é apenas mais uma maneira de contribuir para a opressão dos negros e negras é um erro e um discurso que tenta ser empurrado pelas classes dominantes, que vêm nas cotas raciais uma ameaça à hegemonia de uma universidade que era, praticamente em sua totalidade, quase toda branca.

fora esse ponto, gostei muito dos dados trazidos e principalmente da crítica feita. estive um tempo ausente daqui por limitações em minha réles e arcaica internet discada. rs. mas recebi avisos e li todos os comentários postados nos textos anteriores. fiquei muito feliz pela atenção e pelas contribuições e pontos de vistas que levaste a meu cyberespaço.

de volta então, precisava tirar um tempo para ler teus textos. hahaha. li e comentei todos os últimos. o da isoldete, embora tenha recebido o menor comentário, o que não é costume meu, foi o melhor texto de blogs que já li. hahaha. enfim, dê uma olhada.

abraços de uma pessoa querendo muito saber quem realmente é este gato misterioso, habitante de uma caixa selada, de idéias tão bacanas e textos melhores ainda.

(=