domingo, 4 de maio de 2008

Uma certa Ílion

Assistindo à Tróia, filme épico de 2004 que, óbvio, almeja ser a versão cinematográfica da famosa obra literária homônima (mas que deriva de outro nome para Tróia e, por isso, chama-se Ilíada), não tem como a gente não se emocionar. Mesmo para algumas pessoas que, como eu, são excessivamente puristas e sentem uma agulhada no peito a cada cena acrescentada pelo diretor ou a cada alteração da história para satisfazer os valores hollywoodianos, ainda assim, em vários momentos, sentimo-nos invadir pela deliciosa comoção de “presenciar” os feitos lendários e míticos que marcam a narrativa da guerra de Tróia.

E que narrativa... Composto de 15693 versos distribuídos arbitrária e irregularmente em 24 cantos, o poema gira em torno do herói grego Aquiles, semi-deus filho do humano Peleu e da ninfa Tétis, e de seu trágico destino, amarrado definitivamente ao desfecho da trágica guerra. Envolta numa efervescente gama de sentimentos opostos e recheada por atitudes tanto perversas quanto grandiosas, sua trajetória particular dá mote a outras inúmeras tramas e histórias paralelas, desde a participação do panteão grego no decorrer do conflito – e, diga-se de passagem, também em sua origem, pois foi por causa de uma malfadada disputa de beleza entre Athena, Juno e Afrodite, engendrada pela ardilosa deusa da discórdia, Éris, que o rapto de Helena (motivo da guerra) se tornou possível – , às agruras de outros heróis, de ambas as partes, presentes na disputa, como Ajax, Ulisses – que é o personagem principal de outro épico, ligado à Ilíada, A Odisséia – Páris, Heitor, entre outros.

Até hoje, há uma acirrada polêmica sobre quem seria(m) o(s) autor(es) deste poema épico, tido como a obra inaugural da literatura ocidental. Acredita-se que tenha sido composto por “um velho cantor, pobre e cego que, peregrinando de terra em terra, recompensava a quem o agasalhava com a declamação de seus poemas”, de nome Homero, e que teria vivido no séc. VIII a.C. Mas ele tanto poderia ter sido tão somente o compilador das diversas rapsódias quanto poderia nem mesmo ter existido. Também há a possibilidade de que ele tenha sido o autor de um poema inicial, ao qual, com o passar dos anos, foram sendo acrescentados novos versos, novos cantos, por desconhecidos poetas. (Enfim, o assunto é realmente polêmico e não me atreverei a ir além de uma exposição superficial de suas questões principais.)

Mas esta dúvida irrelevante não interfere de maneira alguma no caráter totalmente excepcional da obra, que atravessou séculos e séculos e chega hoje até nós com o mesmo impacto emocional que encantou e influenciou gerações de poetas, escritores e outros artistas ou simples e embevecidos leitores. Além, é claro, de sua importância didática e instrutiva, pois ambas as obras, A Ilíada e A Odisséia, são as principais fontes do período da história grega denominado, não por coincidência, de Período Homérico, revelando interessantes aspectos sociais, culturais e religiosos da época em que foram escritas, além de conterem uma vasta quantidade de dados e pormenores geográficos e indicações bastante verossímeis dos modelos de conduta e valores da sociedade homérica, inclusive encarnando em várias personagens o ideal heróico grego, tais como: o valor do altruísmo; o sacrifício pessoal em nome da honra; o patriotismo; a amizade sincera, etc. Platão considerava Homero o “educador da Grécia, no mais pleno sentido” e, em sua República, criticou de maneira ostensiva a exposição das fraquezas humanas (egoísmo, ódio desmedido, paixões, inveja, orgulho) como algo natural, não apenas personificadas nos heróis, mas principalmente porque até mesmo os deuses se rendiam a essas fraquezas. E se até mesmo os deuses não podiam fugir a elas, como poderíamos nós, tolos e ridículos mortais?

Discussões históricas e filosóficas à parte, é o seu valor literário e a beleza das situações enfrentadas por Aquiles e cia. o que mais me interessam e impressionam. Não vou contar aqui todos os trechos que me deixam boquiaberto, pois aí esta crônica vulgar, já desnecessariamente extensa, ultrapassaria a quantidade de laudas suportadas até mesmo pelo leitor mais dedicado. Mas não posso deixar de registrar minha sincera indignação com o atroz destino de Heitor, príncipe troiano, valoroso guerreiro, marido e pai dedicado, filho exemplar e cumpridor de todas as tarefas e obrigações perante sua pátria. Não consigo descrever com outra palavra que não seja ‘sacanagem’ o que foi feito dele: teve que enfrentar cara a cara a fúria de Aquiles – pois Heitor matara sem querer o melhor e mais amado amigo de Aquiles, Pátroclo, pensando que fosse o próprio Aquiles, levando este a dirigir toda sua vingança ao azarado assassino de seu fiel companheiro – , em conseqüência de uma guerra que só havia começado porque seu irmãozinho Páris seqüestrara a mulher de outro homem. Claro, esta luta é um dos clímaxes tanto do poema quanto do filme e ambos não seriam o mesmo sem ela, mas que foi uma baita sacanagem, ah, foi.

Outra parte muito boa e que envolve novamente as duas personagens é quando Aquiles, arrependido, chora debruçado sobre o cadáver de Heitor, desculpando-se com ele por tê-lo desrespeitado e o tratado como a um animal, arrastando-o amarrado a sua carruagem. E diz: “Desculpe-me, irmão. Em breve, nós estaremos juntos.”, numa alusão ao fato de que pressentia a morte já próxima, talvez como castigo.

Belíssimo.

3 comentários:

Secoelho disse...

Em primeiro lugar:
Adorei as mudanças, o blog está lindo e creio que continuará com o mesmo sucesso ;]

Secoelho disse...

Em segundo lugar:
Que inveja! Isso é o que eu chamo de jornalismo cultural ;]

camila chaves disse...

Sabe aquelas pessoas apaixonadas quando contam uma história que, da forma como contam conseguem fazer o outro sentir algo minimamente próximo aquilo que sente por ver tamanha dedicação e vontade ao relatar aqueles fatos? Vi isso nesse texto. Tu deves ser um amante dos fatos ocorridos naquela época.

Infelizmente, por um hábito de leitura não tão apurado que, creio eu, seja culpa de uma educação para tal não praticada durante a infância, tenho poucas e fracas leituras a respeito desta temática. Talvez, mesmo os filmes e suas limitações decorridas por conta de uma vontade mercadológica que supera o fato de historiar, sejam até o momento minhas maiores fontes sobre o fato ocorrido na época.

Aquele universo todo, em que deuses e homens se misturam, assim como a verdade e o mito, é muito fascinante. Eu me diria apaixonada, como muitas vezes já disse, mas diante do que li aqui, perco a coragem de dizer o mesmo. rs. O que sei é pouco demais. Muito bom. Ainda mais por conta das novidades, como a da possibilidade de o poema épico ter sido escrito por um homem cego e pobre e que fazia do ato de recitar poesias uma forma de sobrevivência.

Bom demais!
Abraços