domingo, 11 de maio de 2008

Isoldete

Depois de quatro anos, sete meses e doze dias de enrolação, desconversas e adiamentos, ao invés de finalmente pedir a Isoldete em casamento, o que o Zé Carlos fez foi, como um bom canalha, pôr fim ao namoro de tão longa data – fato que, diga-se de passagem, não deixou a Isoldete lá muito satisfeita. Ela, que andava animada desde que o Zé Carlos havia conseguido a promoção tão esperada no emprego – e que, nos últimos tempos, era a desculpa utilizada para não assumir um compromisso mais formal – mal pôde se controlar a tempo antes de arremessar no canalha toda a louça que via pela frente – e, mesmo assim, ainda causou um prejuízo considerável.

Também a família da namorada abandonada mal acreditava no atrevimento do Zé Carlos. Ao saber do ocorrido, o pai, que cansou de jogar porrinha e beber aquela pinga com o genro durante os jogos do campeonato carioca, ameaçou ele próprio matar aquele cafajeste, e teria mesmo cumprido sua determinação, não fosse uma artrose que mal permitia que levantasse de sua poltrona; a mãe, coitada, que já via como que encaminhada a filha mais velha, já com seus vinte e sete anos, na idade de casar, desmaiou e precisou ser levada às pressas ao Socorrão – e, depois que acordou, ficava com as mãos levantadas pro céu, clamando “Me leva, meu Pai, me leva!”.

Em meio a toda essa algazarra, a única mais lúcida era a Lucineide, irmã mais nova da Isoldete. Ela, que esteve ao lado da irmã durante toda a fase crítica de sofrimento e indignação, que a impediu de fazer qualquer besteira mais irreparável e que, apesar de ser a mais nova, era quem mais dava bons conselhos à irmã mais velha, foi quem surgiu com a proposta que, passada a raiva, mais agradou à desolada Isoldete, e que lhe trouxe também uma certa esperança.

– Vamos pedir ajuda à Mãe Titina.

Mãe Titina era uma mãe-de-santo conhecida da família que tinha um terreiro de umbanda lá pras bandas da Vila Maranhão, nos arredores do Porto do Itaqui. Tinha ficado amiga da mãe delas numa época em que ainda eram garotas, e sabiam que, de alguma forma desconhecida, tinha ajudado muito a família. A idéia de Lucineide era pedir à Mãe Titina um forte despacho que fizesse com que Zé Carlos voltasse atrás na sua decisão e reatasse o namoro com Isoldete, pedindo-a em casamento logo em seguida. Isoldete, após refletir pouquíssimos segundos, aceitou a idéia da irmã. Mas acharam melhor não dizer nada a ninguém, preferindo agir na surdina, sem despertar suspeitas.

Alguns dias após tomarem a decisão de visitar Mãe Titina, ao anoitecer, foram juntas ao encontro da mãe-de-santo. Já na Vila Maranhão, não tiveram muito problema em encontrar o terreiro, visto que fizeram uma meticulosa pesquisa nos dias que antecederam a empreitada. Como também já tinham marcado uma “consulta” com a própria, não demorou muito que estivessem em sua presença.

Mãe Titina tratou-as como uma tia trataria as sobrinhas. Sempre muito solícita, ouviu atenciosamente tudo o que Isoldete tinha a contar, e até mesmo passou a mão nos cabelos desta quando, a intervalos regulares, caía no choro, ainda abalada. E dizia: “Calma, minha filha, calma”, num tom que expressava algo do tipo “tudo vai ser resolvido”. E foi justamente isso o que ela afirmou ao final da entrevista, após dizer às duas o que precisavam fazer.

Feliz, antevendo a eficácia das palavras e das ordens de Mãe Titina, Isoldete passou uma semana atarefada, indo atrás de todos os ingredientes do despacho receitado. Tudo isso, claro, era feito às escondidas, apesar das constantes indagações de sua mãe, sempre muito viva, notando a insuspeita alegria do olhar de Isoldete, que se saía com frases do tipo “Não é nada, mãe, não posso mais sorrir?”, o que só deixava sua mãe mais curiosa. Lucineide também ajudou na medida do possível, apesar da advertência de Mãe Titina, que disse que só quem estava pretendendo pedir ajuda aos orixás era quem devia fazer os preparativos do despacho.

Após tudo pronto – galinha preta, cachaça, comida de Exu, alguidares com sangue de sei-lá-quê – , numa madrugada particularmente bela e iluminada por uma lua cheia muito parecida com que a sacerdotisa advertiu-as que daria mais poder ao despacho, elas saíram de casa pé-ante-pé, em busca de uma encruzilhada. Encontraram num lugar não muito afastado a encruzilhada perfeita para o pretendido, isolada e sombria, onde dificilmente chamariam atenções indevidas. Cumpriram os rituais umbandistas relacionados ao desejo de Isoldete e voltaram pra casa, bastante esperançosas de que tudo sairia dentro dos conformes e que, em breve, Isoldete estaria de véu e grinalda trocando alianças com seu “prícipe encantado” Zé Carlos.

Passadas quase duas semanas, as irmãs retornaram ao terreiro de Mãe Titina. Isoldete encontrava-se bastante aturdida, debilitada e, nas palavras de sua mãe, “um caco”. Contaram à Mãe Titina que tinham feito tudo de acordo com os desígnios desta, mas qual não foi a surpresa de ambas ao ficarem sabendo que Zé Carlos, poucos dias depois de realizado o despacho, estava morando com outra mulher. Ainda esperaram um tempo para ver se os efeitos desejados não estavam apenas um pouco atrasados, mas só tinham notícia de que o novo relacionamento dele estava indo de vento em popa, e então resolveram voltar.

Mãe Titina ouviu tudo com uma fleuma admirável. Ficou algum tempo em silêncio, meditando, provavelmente buscando o motivo do fracasso daquele pedido de auxílio divino. Quando o silêncio já se prolongava por um tempo constrangedor, Mãe Titina pediu desculpas a Isoldete e disse que não previra a real dificuldade do pedido. Passou-lhes um novo despacho, maior e mais pormenorizado e garantiu-lhes que em no máximo três meses Zé Carlos estaria na Igreja casando com Isoldete, ou ela não se chamava Mãe Titina. Nem que para isso tivesse que falar com Exu pessoalmente.

Incrivelmente, exatos três meses depois, numa festa que deu o que falar, diante de uma quantidade de convidados invejável, uma esfuziante e sorridente Isoldete dizia “Sim” a um suarento Zé Carlos, perante o padre que realizou o casamento de ambos, que teve Lucineide como madrinha e Mãe Titina como convidada de honra. A mãe delas estava imensamente grata a Mãe Titina pelo que havia feito por sua filha – claro, a esta altura do campeonato, aquela já estava a par de tudo – e fez questão de dar uma ajuda financeira bem maior à amiga que o estipulado pelas filhas, o que Mãe Titina recusou veementemente, alegando que era apenas uma intermediária entre os orixás e os fiéis e que elas deveriam mesmo era agradecer a Exu, não a ela.

(Faltou dizer que, quando dizia “Exu”, Mãe Titina referia-se na verdade a um negão de quase dois metros de comprimento e tórax que rivalizaria com o de gorilas, que era seu secreto guarda-costas pessoal, a quem ela pedia “auxílio” sempre que algum despacho em especial não saía conforme o previsto, como no caso do infausto Zé Carlos – que, depois da "visita de Exu", apareceu chorando à casa de Isoldete, com um buquê de rosas nas mãos, implorando que esta voltasse com ele.)

5 comentários:

Secoelho disse...

Ararara! Nem ficou ruim como tu disseste, mas realmente a idéia era muito boa, acho que se tu tivesse colocado o inesperado em outro lugar ficaria melhor... Eu até imaginei um final do Zé Carlos abrindo a porta de casa e o negão dizendo: - Ze Carlos? Eu sou Exu!"

ps.: acho que tu escreveu roas no lugar de rosas. ;]

Solitude disse...

Ficou bonzão o conto, gostei mesmo!
O final engraçado e inesperado deum um toque especial no texto. Parabéns cara!

Natiih disse...

Ai,amei o texto..V
ocê escreve muito beem,de verdaDe!
^^
ameei o bloog,
beeijos.

camila chaves disse...

hahahahahahahahahahaha

como diziam minhas amigas goiãnas, "moço do céu", sem dúvida esse foi o melhor texto que li nas minhas andanças por blogs desse mundo. hahahaha. muito bom, mesmo. dei boas risadas.

(=

Annelize Tozetto disse...

Oi, oi!
Camilinha ali que me passou o link dos blogs da vida. Cara... muito bom seu texto viu? =]
Quem dera conseguir escrever tão bem quanto. Algumas risadas aqui, outras acolá... ;)
Beijos, beijos