domingo, 18 de maio de 2008

O paranóico

Encontraram-no escondido num matagal em meio a arbustos e palhas, enroscado em cipós e urzes, com arranhões e cortes diversos espalhados pelo corpo. Seu olhar denunciava um desequilíbrio mental proeminente e, enquanto era arrastado dali pelos homens da clínica de “repouso”, gritava histericamente o motivo de sua permanência naquele esconderijo:

– Me larguem, ele está aqui! O Predador está aqui, está me seguindo!

É preciso que dois fatos sejam ressaltados antes de prosseguir com a narrativa: em primeiro lugar, sim, o ‘Predador’ a que Vincent se referia era realmente o guerreiro extraterrestre fictício dos filmes O Predador, aquele com cabelos em forma de dreadlocks, mandíbula parecida com a de um caranguejo e cara de poucos amigos; em segundo, não era a primeira vez que ele era acometido daquele surto paranóico que o levava a buscar refúgio em lugares insólitos, pensando que havia alguém ou alguma criatura à espreita, perseguindo-o.

Nunca se soube ao certo como aquele problema psíquico se iniciara. A mãe dele, D. Lucy, punha a culpa nas drogas. Meses depois que descobrira que seu filho fumava maconha e sabe Deus o que mais, fora surpreendida pelo primeiro contato que teve com a doença de Vincent, quando este passou mais de dez horas trancafiado em seu quarto com medo de um assassino que – Vincent tinha certeza – estava oculto na vizinhança, esperando um vacilo de sua parte para matá-lo. Foi preciso que seu Josh, o pai, arrombasse a porta do quarto do filho para tirá-lo de lá.

Durante alguns dias, chegara-se mesmo a acreditar que poderia haver um bandido ou um criminoso qualquer tentando de fato matar Vincent, talvez em decorrência de um desentendimento com traficantes ou algo do tipo. Mas como a polícia jamais encontrara vestígios de um assassino em potencial nas redondezas, nem o rapaz parecia dar alguma indicação verossímil para a existência de tal personagem, a hipótese de pura fantasia mental ganhara força e terminara por sobrepor-se a qualquer outra possibilidade quando, semanas após a primeira manifestação crítica da paranóia persecutória, ele tivera um novo ataque, dessa vez fugindo em disparada da praça onde passeava com sua mãe, alegando que o assassino encontrava-se em algum dos prédios que os cercavam e de lá apontava uma sniper direto para sua cabeça. Ele até vira o laser vermelho da mira da arma em certo momento.

Assustada e sem saber o que fazer para ajudar o filho, D. Lucy pedira conselhos a amigas e estas lhe indicaram a clínica psiquiátrica do Dr. Leary, um eminente especialista em casos como aquele, bastante competente e discreto. Ela o procurara e, poucos dias após este encontro, Vincent estava sob a tutela do referido doutor, no Instituto de Recuperação Psíquica, que ficava um pouco afastado da cidade, um lugar agradável e cercado por uma paisagem natural bem convidativa. Vincent não ficara muito satisfeito com a decisão dos pais a princípio, mas com o tempo, por sentir uma segurança reforçada na clínica, achou de muito bom grado sua estadia por lá, conseguindo finalmente relaxar um pouco mais suas neuroses.

Durante dois meses, tudo correra muito bem. Afastado da influência negativa da cidade e das drogas ilícitas, com auxílio da medicação prescrita pelo Dr. Leary e das próprias sessões terapêuticas diárias com o mesmo, Vincent aparentava uma melhora visível, já tendo consciência de que sofria de um distúrbio conhecido como ‘paranóia’, que desencadeava por vezes delírios de grandeza ou, como no caso dele, de perseguição – e que, portanto, não havia nenhum assassino de verdade perseguindo-o, era tudo fruto de sua imaginação. Por isso, já não tinha medo de caminhar sozinho por entre as trilhas ao redor do instituto, nem de ficar desprotegido em lugares abertos e o Dr. Leary já dava como certa sua alta em poucos dias.

Mas esta certeza fora por água abaixo numa noite fria e chuvosa, véspera da saída de Vincent da clínica. Dr. Leary fora acordado às pressas pelas enfermeiras, que lhe informaram que o paciente 013 (Vincent, claro) arrombara a porta de sua alcova e desembestara numa fuga alucinada pelos corredores, e só fora contido por seis enfermeiros agindo em conjunto, que lhe aplicaram um sedativo e o puseram numa camisa-de-força, deixando-o em seguida na enfermaria, desacordado. Mais tarde, ao interrogar o rapaz, Dr. Leary descobrira o motivo do novo surto: Vincent tinha certeza de que, da janela de sua cela, avistara o ser mais pavoroso que já vira em toda sua vida: um Predador. Ele disse que ficara intrigado com alguma coisa ao lado de uma árvore, num lugar onde parecia não haver nada, mas que tinha “um certo movimento estranho”; de repente, o “lugar estranho” se transformou na horripilante criatura, por poucos instantes, mas o suficiente para Vincent compreender que o que ele vira era na verdade um Predador, o alienígena dos filmes, e que estava se utilizando de sua tecnologia de invisibilidade para surpreender Vincent em seu catre, quando este estivesse dormindo – mas o Predador provavelmente não contava que seu aparato da invisibilidade pudesse falhar justamente no instante em que Vincent, intrigado, observava-o. Achando que a sorte lhe dera uma oportunidade de se salvar, ele não pensara duas vezes e encetara a mal-sucedida fuga.

Dr. Leary ficara extremamente desapontado com aquela recaída às vésperas da cura total e também não pudera acreditar que, apesar de tudo que haviam conversado anteriormente, Vincent recusava-se a admitir que aquela visão não passara de uma nova modalidade de paranóia, dessa vez com uma acentuada dose de esquizofrenia – o que muito preocupava o pobre doutor. Mas ele nada pudera fazer para impedir que aqueles episódios voltassem a ocorrer, até mesmo com uma freqüência regular, apesar do aumento da medicação e da vigilância em torno de Vincent, o que nos traz ao fato que iniciou a história, quando ele conseguiu escapar da clínica e se embrenhou na mata, à guisa de se esconder da criatura.

Depois desse episódio, o Dr. Leary decidiu utilizar sua carta na manga mais poderosa, e talvez a última: a regressão. Através da terapia das vidas passadas – que aprendera com um excêntrico e misterioso psiquiatra hindu –, ele pretendia investigar as origens secretas daquele trauma e, com ajuda deste conhecimento, expurgar definitivamente da mente de Vincent aquelas paranóias deletérias. E, por incrível que pareça, deu certo: em pouco tempo, embora Vincent estivesse antes num estado quase perdido, ele começou a se recuperar de uma maneira inacreditável, recobrando a lucidez e o controle dos pensamentos, pouco a pouco, novamente a par da mesma certeza que havia conquistado no início de seu tratamento e perdido após o “aparecimento” dos Predadores, que era a de saber que tudo aquilo era uma construção ilusória provocada por sua mente e que as criaturas, óbvio, não poderiam ser reais, eram fictícias personagens de Cinema. Ele até mesmo se espantava com o fato de ter ficado por tanto tempo à mercê desses absurdos, o que fazia Dr. Leary se perguntar por que não usara aquele método desde o princípio, chegando a pôr a saúde mental do paciente em risco por conta de uma avaliação errônea de procedimento.

Seu Josh e D. Lucy não cabiam em si de felicidade ao receberem Vincent em casa novamente após quase dez meses de tratamento. Como era o filho único do casal, eles passaram todo esse tempo vivendo um inferno particular, com medo de perderem o filho para sempre. Portanto, festejaram bastante seu retorno e o fizeram prometer que não entraria mais para o mundo das drogas nem faria mais nada que pudesse pôr em risco sua sanidade mental. Vincent fez como os pais pediram e disse que dali pra frente daria um novo rumo a sua vida, que acessos como aquele só se tornaram possíveis porque as drogas perturbaram sua mente a tal ponto que ele não pudera mais distinguir o real do imaginário e que, com a ajuda do Dr. Leary, ele se fortalecera de modo a não mais se deixar levar por paranóias infundadas.

E as coisas sucederam conforme Vincent prometera aos pais durante alguns meses, até o fatídico dia em que um homem encapuzado surpreendera-o quando voltava da faculdade numa rua escura e, após pronunciar uma única palavra (“Finalmente!”), apunhalara-lhe na direção do coração, um golpe certeiro, enquanto Vincent caía, já agonizando e com a vista escurecendo, perguntando-se se aquilo era real ou apenas uma paranóia um pouco mais elaborada.

O assassino ficara ao lado de Vincent até que este já não esboçasse mais nenhuma reação, e já ia se retirar, quando de súbito materializou-se um Predador a sua frente, que o cortou em dois com uma pequena serra circular que trazia em seu antebraço, antes de se retirar para as trevas de onde surgira.

3 comentários:

Secoelho disse...

Meu Deus, você acredita que esse texto me deu um pouco de medo? Agora eu tenho quase certeza que eu sou paranóica, eu fiquei olhando o tempo todo para a janela pra ver se o predador estava me espreitando...

Não tenho muita certeza se entendi, mas se sim, achei uma ótima idéia!
Uma vez um amigo me disse: "Não tenha medo de ficar sozinha, nem do fantástico, tenha medo dos homens!

É mais ou menos assim?

Assim que sou disse...

Muito engraçado! Essa é a primeira vez que te visito e, pode ter certeza, li o conto do início ao fim, sorvendo com calma e gargalhadas ao final. Muito bom! E não sei se o objetivo foi esse, mas vi no Vincent a paranóia de Van Gogh.
Bom demais!!

bjs. Veronica

Cazz disse...

HAHAHHA
MUITO foda leite.
chorei no fim.
ri demais.
vai te fuder! muito bom.
HAHHAHA