domingo, 27 de abril de 2008

Estranho espelho

Os cronistas de jornal ou de revista são uns chatos. Mesmo aqueles que se direcionam a assuntos mais específicos, seja por um certo conhecimento acadêmico ou mera experiência. Eles não passam de pedantes intrometidos que ficam nos enchendo periodicamente com sermões e balelas, dando pitacos e opiniões sobre os mais variados assuntos, desde as inconstâncias das bolsas de valores ao redor do globo, até os acontecimentos nas partidas de futebol pelo mundo afora, passando por temas políticos, sexuais, filosóficos, artísticos, e por aí vai.

Já os cronistas de blog, ah, esses são os piores. Pelo menos, os cronistas de jornais ou revistas ainda são, óbvio, requeridos pelos jornais e revistas da qual fazem parte e, na maioria das vezes, também pelos leitores das mesmas. São colaboradores profissionais e muitos até recebem salário pelo exercício de tal profissão. Os cronistas de blog, não: simplesmente apropriam-se de algum sítio gratuito oferecido na internet e que é próprio para isso, os blogs, e então passam a propagar seus “conhecimentos” e pontos de vista acerca de uma gama de assuntos ainda mais variada que a dos cronistas profissionais, semanalmente, para qualquer desavisado ou desocupado (ou ambos) que esteja navegando à toa pela blogosfera. Quando não, além de crônicas regulares, também publicam (ou postam, termo que designa as publicações do tipo) textos líricos, sejam estes poesias de qualidade discutível ou histórias de variados tipos e estilos.

Como já extensamente citado acima, a maravilha que permite que estes escritores obcecados e impertinentes possam passar sua sabedoria a todos são os blogs. O blog é esta fantástica ferramenta de comunicação, a mais nova coqueluche da vasta-teia-do-mundo. Surgiu em meados de 1997, através do blogueiro original, Jorn Barger, que criou o primeiro dos blogs, o robotwisdom, e que também cunhou o termo weblog (em inglês, web: rede, a internet como um todo; log: diário). Depois, um tal de Peter Merholz, também um dos primitivos blogueiros, definiu o termo como o conhecemos hoje, colocando em sua página particular o anagrama em forma de trocadilho “we blog” (algo como “nós blogamos”), que passou a ser utilizado em larga escala por todos os blogueiros da época e autenticou a criação do verbo inglês “to blog”.

Num boom que nenhum desses futurólogos e vaticinadores tecnológicos de plantão pôde prever, os blogs tomaram conta do mundo. Eles, que no princípio não passavam de simples diários pessoais expostos aos amigos ou a outros blogueiros, cuja influência e importância para muitos especialistas não passava de simples euforia adolescente e passageira, multiplicaram-se aos borbotões e, hoje, dobram de quantidade a cada seis meses. Como tudo que se multiplica de maneira assustadora, eles também mutaram e evoluíram, tanto em forma quanto em conteúdo e, apesar da maioria ainda se atrelar ao significado original, muitos alteraram sua motivação e se tornaram os chatos cronistas da nova geração, com sua propensão para tons líricos, jornalísticos, filosóficos, poéticos, etc.

Claro, esses “especialistas” não levaram em consideração a massa de indivíduos desprovidos de meios de expressar sua opinião que se sentiam marginalizados da sua necessidade de emitir juízos de valor a respeito da realidade que nos cerca; não conceberam a enormidade de escritores, poetas e jornalistas potenciais espalhados pelos quatro cantos, frustrados pela impossibilidade imposta de exercerem a profissão de seus sonhos, que encontraram nos blogs o mecanismo ideal para tal realização, possibilitando a expansão geométrica de seus desvarios literários ou relatos jornalísticos e o surgimento desse “novo gênero” de escritores, os cronistas de blog.

Fazer o quê. Se fomos imperscrutavelmente tragados pela magia da Literatura e misteriosamente levados ao feérico mundo da arte da escrita, e agora encontramos um meio legal e legítimo de desfrutarmos dos inebriantes prodígios da realização de um sonho - ainda que de forma restrita e, muitas vezes, isolada -, não caberia a nenhum filósofo ou especialista ou crítico ou qualquer cronista de jornal/revista julgar-nos. Somos todos provavelmente filhos do mesmo Deus e temos o mesmo direito comum de opinarmos e extravasarmos nossos oprimidos e encapsulados sentimentos, frutos de uma existência incompreensível e extraordinária, entremeada de alegrias, manipulações, dores, temores e sonhos.

Fomos enfeitiçados. E o feitiço, embora incerto, é delicioso. Desculpem-nos os desgostosos, mas prosseguiremos.

5 comentários:

Borges Júnior disse...

Engraçado, a primeira impressão que tive desse blog foi de me parecer ser uma coluna de jornal. Até hoje acho isso.
No mais, a coluna agora tá linkada no meu blog :)

Secoelho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Laila disse...

Olá, Gato de Schrödinger. Devo dizer que tu te expressa como um conhecido meu. Este, entretanto, se me lembro bem, se denominava como outro animal... :P
De qualquer forma... Sobre teu post:
Interessante a análise sobre os blogueiros, eu provavelmente faria de maneira um pouco diferente, talvez por me espelhar nos meus próprios motivos de escrever em um blog. A comunicação e todas as formas de linguagem me fascinam e escrever além de ser como um terapia (eu geralmente organizo melhor minhas idéias e as percebo melhor assim) é uma forma de jogar minhas percepções em algum lugar, digamos que eu tenha uma necessidade de me expressar e criar, e de certa forma compartilhá-las com outros que se interessem e com outros que procuram compartilhar as suas próprias. Acho que tu é um desses, o que me anima bastante. :*

Secoelho disse...

É, concordo que o blog é uma forma de suprir os nossos anseios de expressão, mas até hoje me questiono se um dia conseguirei utilizar todo o potencial de comunicação que o meu blog possui.
Acho que a multiplicação dos blogs só acentua o caráter individualista deles.
Será que isso é a democratização da comunicação que tanto se fala?

(Acho que meu comentário tá confuso de desorganizado ;)

camila chaves disse...

ah... me irrita bastante essas pessoas que se acham críticas de tudo em blogs e que adoram fazer desse um espaço que mais parece um vômito de insultos e teorias.

certa vez um rapaz pertencente a um campo a um campo político de oposição ao meu, aproveitou uma oportunidade para dizer que lia meu blog e que havia se surpreendido com o que por lá havia lido.

perguntei pra ele sobre o porquê da surpresa e ele respondeu em um tom irônicos que meu blog era uma espécie de "socialismo pop", e nada extremista ou rude como ele imaginava.

ora, ora... não criei um blog para panfletar. no dia que eu precisar fazer isso, junto um punhado de moedas e procuro uma xerox. é claro que este, como quaiquer outros, são também espaços de disputa de consciência, mas cabe a cada um fazer deste o que mais lhe agrada.

e se esse "mais" agradar também outras pessoas, muito bom. encontrou-se a fórmula perfeita. agora, venhamos e convenhamos: pior que os tons líricos, jornalísticos, filosóficos e/ou poéticos dos neoblogueiros, são aqueles que utilizam desse como fotologs.

e não falo aqui das boas fotografias, porque eu as admiro, mas sim daquelas "tosquerias" em tons puramente personalistas, a la "câmera em frente ao espelho". e, já que aqui é um espaço para texto: coloca-se a "letra" de algum forró, de preferência que ele seja da banda que fez show no fim de semana passado. hahaha.

a gente encontra cada coisa por aqui. mas que bom que entre tantas coisas descartáveis, encontramos leituras com conteúdo de qualidade, como por aqui.

(=