domingo, 20 de abril de 2008

Descuidos (ou Pai e filho)

É noite, por volta de umas oito, nove horas. O pai encontra a casa procurada e estaciona o carro na entrada, sem desligar o motor e dá aquela buzinada clássica. Passados uns poucos minutos, sem perceber nenhum movimento ou barulho em resposta, buzina novamente. Quando já pensa em pegar o celular e ligar para o filho, eis que este finalmente surge, saindo pelo portão da frente da casa com um outro garoto, provavelmente o dono da casa. Ou o filho do dono, como pensa o pai. O filho se despede e entra no carro com ímpeto, jogando de qualquer maneira a mochila que trazia consigo ao banco de trás.

– Pô, pai, não entendi... – reclama o filho, irritado. – Eu já tinha dito pra mamãe que ia passar o fim de semana na casa do Marcão. Por que você fez questão de vir me buscar de qualquer jeito então?

O pai, nada.

– Tava todo mundo aí – continua o filho – o Gatuso, o Bolinho, o Ricardo, o Rodrix, todo mundo. Se eu já tinha avisado, não sei porque você teve que vir me buscar, não sei. Qual foi o problema?

O pai permanece em silêncio.

– Que foi? – Estranha o filho. – Você não vai falar nada, não?

O pai pára o carro no gramado de uma pracinha e o desliga, deixando no ar apenas o som bem baixinho do cd player, quase um sussurro. O filho o observa, já levemente apreensivo, mas nada mais fala. Após alguns instantes, o pai abre o porta-luvas e pega um bolo de papel, como que amassado.

– Precisamos ter uma conversa, meu filho – começa o pai. – Achei isso nas suas coisas – diz, pondo em seguida o bolo de papel na mão de seu filho.

O filho gela. Ou quase isso. Não era um simples bolo de papel amassado. Era um bolo de papel amassado com recheio de maconha. Um paradão. Desconcertado, o filho tenta ganhar tempo.

– Você mexeu nas minhas coisas?

– Não tente desconversar – adverte o pai, sério. – Entrei no seu quarto pra saber onde você tinha posto a Veja dessa semana e encontrei isso ao lado do seu ventilador. E nem adianta dizer que não é seu, porque eu sei que é.

O filho, nada.

– Há quanto tempo você está fumando maconha?

O filho continua em silêncio, sem esboçar reação alguma, aparentemente ainda olhando para o conteúdo em sua mão.

– Vou ter que conversar com sua mãe – prossegue o pai. – Ela tem que saber disso, tem que saber que o filho agora é um drogado, que usa drogas escondido e sabe-se lá o que mais. Não vou mais permitir que você ande com esses seus amigos, esse monte de delinqüentes, esses...

– Pai – interrompe o filho. Após alguns segundos, continua. – Eu também tenho uma coisa pra falar com você.

O pai, interrompido e ligeiramente confuso, observa o filho, enquanto este põe a mão no próprio bolso e de lá puxa seu telefone celular. O filho mexe em alguns botões e, em seguida, passa o telefone para o pai.

– Um dos meus amigos bateu essa foto no fim-de-semana passado e me mostrou ainda há pouco, lá na casa do Marcão. Se quiser ver as outras, é só apertar a setinha pra baixo.

O pai gela. Ou mais que isso. Sua fisionomia não se altera, mas seu coração está bem mais acelerado, não pode acreditar no que vê. Nas fotos, ele aparece ao lado de uma mulher bem mais jovem que ele, dançando e bebendo no bordel em que tinha ido com dois amigos na sexta-feira passada. Numa das fotos, ele beija a moça.

– Quem bateu essas fotos? – Pergunta o pai, em tom contido.

– Isso eu não posso dizer – responde-lhe o filho, algo irônico. – Meu amigo, que passou as fotos pro meu celular depois, pediu pra não ser identificado. E também não adianta dizer que não é você, a mamãe bem que ia reconhecê-lo...

– Meu filho – pasma-se o pai. – você está me chantageando?

– Não, pai, claro que não... – nega sonsamente o filho, de um jeito já bem menos tenso. – Apenas queria lembrá-lo que ambos temos em comum assuntos que preferimos que ninguém, principalmente a mamãe, fique sabendo.

O pai, entendendo o jogo do filho, pensa por alguns segundos. A mulher não precisa mesmo saber que o filho anda fumando unzinho de vez em quando, ele mesmo (o pai) pode dar conta de vigiá-lo e evitar que aquilo saia do controle. Não valia a pena correr o risco de que o filho mostrasse a sua esposa (do pai, claro, não do filho) umas fotos em que ele se engraçava com outra mulher e que nada significavam. O remorso já vinha corroendo todos os seus órgãos desde aquele fatídico dia, não era necessário pôr o casamento numa situação delicada dessas. Quanto ao fato de o filho estar chantageando-o, que mal havia? Pelo menos, aquela esperteza comprovava que o filho ia se dar bem na vida. Talvez como deputado.

– Bem, é verdade, sua mãe não precisa mesmo ficar sabendo de nada – concorda o pai, em tom ameno e cúmplice, tranqüilizando o filho. – Afinal de contas, esses são assuntos de homem, não é mesmo, e uma mulher só ia atrapalhar. Guardemos esses segredos entre pai e filho.

– Exatamente – repete o filho, sorrindo, olhando nos olhos do pai – guardemos esses segredos entre pai e filho.

– Mas tem uma coisa – complementa o pai – você tem que apagar essas fotos.

– Tá bom – aceita o filho. – Mas só se você deixar eu ficar com meu paradão.

– Não deixo nada – diz o pai, sério, encarando o filho. Depois sorri. – Bola logo é um beck aí, uma bomba, que hoje eu quero ficar é doidão.

3 comentários:

João Victor disse...

monoteta.

Secoelho disse...

where's?
hoje já é quinta!

Secoelho disse...
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