quarta-feira, 9 de abril de 2008

Incertezas

Talvez você esteja por fora, é possível. Com tantas coisas acontecendo no Brasil e no mundo e a rapidez e a facilidade com as quais as notícias são obtidas e informadas hoje em dia - sem contar aqueles fatos mais inquietantes, os nossos problemas – é natural que muitas informações, mesmo as de grande relevância na atualidade, passem despercebidas. Portanto, não há porque alguém mais informado possa sentir-se no direito de fazer uma cara de desdém caso você ainda não saiba da atual crise americana.

Mas, uma vez avisado, fique de olho. Até o Fed (Banco Central americano) e o FMI (esse você já conhece) andam bastante apreensivos. Em recente declaração, Alan Greenspan, ex-presidente do Fed e "autoridade" nesses assuntos, afirmou que a presente desaceleração da economia motor do mundo contemporâneo é a pior desde a Segunda Guerra. Os economistas do FMI foram ainda mais longe, comparando esta crise financeira com a inesquecível e nostálgica crise de 1929, que resultou no crash da Bolsa de Nova York e em anos de recessão na economia dos Estados Unidos – e, por extensão, do mundo todo.

Em outra época e outro lugar, numa crise bem mais antiga do que estas últimas citadas, a situação crítica também foi se aproximando pouco a pouco, sem que as pessoas se dessem muita conta do que estava acontecendo, e deu no que deu: a queda de um império. A crise a que me refiro é a chamada “Crise do terceiro século”, que ocorreu de 193 a 285, no berço da nossa civilização ocidental, o Império Romano. Como a economia romana – e conseqüentemente, a sociedade como um todo – era escravista e baseada na expansão territorial, com o fim dos avanços das legiões romanas, que já haviam conquistado praticamente todo o território disponível – a Índia e a China ficam fora desta conta, claro – e usado toda a mão de obra “à disposição”, todo o Império começou o lento e doloroso processo de declínio que culminou com a deposição do último imperador do lado ocidental, Rômulo Augústulo – o lado oriental ainda teria uma sobrevida de mais ou menos quinze séculos. Com a visão incrementada com quase dois milênios de história humana, é fácil olhar pra trás e fazer todas as ligações necessárias entre os fatos e perceber que um consertozinho aqui, outro concertozão acolá, menos um errinho em outro lugar ali e talvez a Grande Roma não tivesse caído e permanecesse por quantos anos mais o acaso ou o destino permitissem. Mas, à época, nada disso era visível, muito menos conexivo, e os cidadãos romanos, mesmo os senadores e os pomposos imperadores, não tinham a menor idéia do que viria a acontecer e não puderam fazer muita coisa para evitar serem atropelados pela História.

Calma, calma. Não estou querendo dizer que estamos assistindo a uma refilmagem em forma de reality show de um dos acontecimentos mais cruciais da história ocidental. A atual conjuntura é bastante diferente da daquela época: o capitalismo (hoje, financeiro) e seus filhotes mais recentes, o neoliberalismo e a globalização, deram origem a formas de organização da sociedade cada vez mais diferentes que as da Antigüidade. Também não há, como havia naquela vez, nenhuma tribo bárbara – sejam alienígenas tecnologicamente mais avançados ou sejam, sei lá, gorilas alterados geneticamente –, que se saiba, esperando um vacilo nosso para nos invadir e saquear nossas maiores cidades, atazanando nossas fronteiras e precipitando qualquer possibilidade de ruína. Além do mais, os mesmos “tios” que deram suas opiniões mais acima disseram que não devemos nos preocupar (nós, latino-americanos), que a crise americana não vai prejudicar a economia em desenvolvimento da América Latina – mesmo que a Europa e o Japão estejam em polvorosa em relação as suas respectivas economias.

Mas nunca é demais advertir e lembrar que o nosso tempo aqui, agora, é único, que tudo aquilo que acontece ao nosso redor é o que nunca antes aconteceu – filosófica e não-analogicamente falando – e que não há nenhuma segurança pétrea designando os acontecimentos futuros. Não sabemos se essa crise de agora é o prenúncio do tão sonhado congraçamento entre todas as nações – duvido muito – ou a primeira de uma série de crises que culminarão na terceira e última guerra mundial, e desconfio bastante que nem mesmo os astrólogos poderão ler nas estrelas o resultado final de uma crise que teve início no obscuro e, até pouco tempo, desinteressante mercado imobiliário americano. As incertezas pertinentes ao futuro do mundo pesam todas agora sobre os nossos ombros e, como no caso dos romanos, podemos estar imersos no olho de um furacão devastador, que mudará a história para sempre e permanecemos completamente alheios e indiferentes a isso, como bêbados em meio a uma revolução.

Ou não. Por via das dúvidas, é bom ficar de olhos bem abertos.

Um comentário:

Secoelho disse...

Gato, O rei da conclusão em poucas frases...
Mas, veja bem, esse seu texto me passou uma sensação estranha, parece que o penúltimo parágrafo chegou parando abruptamente o clímax do texto...

Dica: inclua glocalização!