domingo, 8 de abril de 2007

O menino e a chuva

O menino veio correndo assim que começou a ouvir aquele barulhinho gostoso e contínuo, que vinha acompanhado do não menos delicioso cheirinho de terra molhada. Correu, muito rápido, quase tropeçando no vaso favorito de sua mãe. Era a chuva, era ela! Com aquele seu descolorido fantástico, riscando a realidade como um lápis. Ele mal pôde acreditar, como estava grossa! Era a sua chuva favorita, daquelas que até doem um pouquinho as costas, como se as gotas trouxessem pequenas agulhinhas dentro delas.

Em poucos instantes, o menino já estava todo ensopado, parecendo roupa que acaba de sair da lavanderia. Ah, se sua mãe lhe visse agora, com certeza lhe daria uns bons cascudos, afinal, ele estava usando uma de suas roupas novas. Mas não tinha problema, depois pensaria nisso. Agora, ele só queria aproveitar a maravilha daqueles instantes. Sentir a água escorrer pelo seu rosto e lhe lavar a face. Correr, como que sem rumo, sentindo a pressão do vento lhe comprimindo as ventas, tal qual um cachorrinho desses vira-latas, sem dono, sem destino, sem medo. Tudo o que era mundo era agora uma realidade distante, sem qualquer parentesco com aquela felicidade vadia e molhada da chuva, de riso simples e despreocupado, fácil como somar um mais um.

Sempre que chovia, o menino gostava de ir a um lugar secreto, só seu, lá detrás da casa que ficava ao lado do terreno baldio. Tinha um tronco que servia como um banquinho e uma espécie de bica, onde a água descia como uma cascata. Como a água era forte e gelada! Às vezes, vinha um sei-lá-quê de essência fria por dentro da cachoeirinha, que ele até sentia um arrepio subir-lhe por toda a espinha. E ele ficava lá, parado, deixando a água abraçar-lhe o corpo e tomar a forma do seu ser, com o tempo parecendo parar, como se só houvesse ele e aquele momento no universo.

Sem aviso e indo sabe lá onde, a chuva começava a esmorecer, sem perder ainda a maior parte de sua potência, mas já deixando os sinais que anunciavam que, dentro em breve, partiria pra outro local. Nessas horas, o menino sentia uma espécie de tristeza passageira, como quem sabe que sua fonte de prazer lhe será roubada. Era comum, quando sentia isso, que ele sentasse no tronco que parecia um banquinho e ficasse sentado ali, observando a paisagem banhada, até que rareassem as gotas. Como tudo era tão mais bonito molhado! Quer dizer, nem mais bonito, mas um bonito diferente, como uma mão que tirasse o véu que escondia a verdadeira forma por detrás das coisas. Tudo parecia tão real! Mais natural do que qualquer outra naturalidade. De vez em quando, seu olhar se deixava levar junto à correnteza de um desses alegres riozinhos que se formam com a água abundante que cai dos céus. Não raro, ele se imaginava bem pequeno, proporcional ao arroiozinho, a desbravar aquelas águas com um de seus barquinhos, em busca dos segredos do mundo das pequenas coisas. Uma fantasia que sempre o deliciava, não apenas pela aventura em si, mas também porque deixaria aquele mundo sem sentido pra trás, com seus pais sempre ausentes, mais preocupados com o que os outros pensavam do que com ele, com crianças sem infância que disputavam por qualquer coisa no colégio, como adultos ocultos em corpinhos infantis, gente grande precoce; mundo de pessoas apressadas, sem tempo pra um sorriso, pra uma brincadeira, pra qualquer contato mais íntimo com a eterna beleza do aqui e agora. Seus pensamentos nem sempre eram tão profundos assim, porém, no seu âmago, ele sentia aquelas palavras mais intensamente do que qualquer poeta ou filósofo, mesmo sem se dar conta.

No fim, a chuva não era mais que pequenas teias de aranha líquidas enroscando-se em sua pele e o sol já era uma bola amarela no céu. Cansado, o menino vinha caminhando sem pressa pra casa, contemplando a realidade, que parecia despertar de um sono, ou simplesmente retornado do lugar onde tinha ido se abrigar da chuva. As pessoas o olhavam com um misto de curiosidade e desprezo, como se o simples fato de estar encharcado o transformasse num mendigo ou num vagabundo qualquer. Ele nem ligava. Às vezes, até achava engraçado. Queria poder dizer pra aquela gente que elas não precisavam ser tão sérias, que, sim!, era permitido fazer coisas estranhas vez ou outra , que a felicidade pode estar mais perto do que se imagina e que nada impedia que a vida fosse diferente daquela mostrada todos os dias nos noticiários e jornais. Não exatamente desse jeito, mas algo assim. Mas sabia que só receberia olhares de reprovação e um bom sermão sobre a dura realidade, como sua mãe sempre fazia.

Um dia, ele pensava, iria tentar mostrar pra todos que o seu mundo ideal não era apenas faz-de-conta e faria o possível pra que todos pudessem ser felizes, como ele achava que devia ser desde o começo. Mas isso, quando fosse maior. Por enquanto, ele apenas esperaria pela próxima chuva, trazendo de volta aquela sensação de liberdade e plenitude que, naqueles breves momentos, brotava do fundo de sua alma.

3 comentários:

secoelho disse...

eu conheço esse menino ^^

Secoelho disse...

Todo mundo gosta da chuva grossa \o/
Sim, li um livro que dizia, em outras palavras, que a sabedoria sempre parece meio tola quando é dita,acho que isso aconteceria com esse garoto se quisesse falar alguma coisa às pessoas sisudas.

simone assunção disse...

Que histório gostosa de se ler.
Eu também já tomei muitos banhos de chuva na saída da escola com um grande grupo de alunos malucos por banho de chuva. Isso tem uns 35 anos atrás mas a lembrança é tão viva como se fosse agora.
Belas recordações.