quarta-feira, 14 de maio de 2008

Uma máscara que cai

Há uma crônica do Luis Fernando Veríssimo, esse grande escritor e cronista brasileiro, cujo título é Racismo, onde ele, de maneira primorosa, faz um retrato fiel e bem-humorado (do tipo “rir pra não chorar”) da situação do negro no Brasil, através de um diálogo entre um homem branco e outro negro. Conversa vai, conversa vem, e o homem branco da crônica faz a declaração chave sobre o racismo brasileiro:

– E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.

Não se choque com a afirmação. Não é verdade? No nosso país, onde o discurso demagógico e hipócrita da sociedade proclama aos quatro cantos que “aqui não há racismo”, a realidade é que só não há um conflito maior entre brancos e negros justamente porque a doutrina oficial de congraçamento racial – arbitrariamente forjada pela experiência de quatro séculos de escravidão – desdenha de qualquer inconformidade por parte das vítimas e não permite que as desigualdades gritantes e a discriminação velada sejam discutidas de maneira adequada e proporcional ao problema. Como explica Milton Santos, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, “Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes, deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária”. Ou seja: como é o negro que desde sempre sustenta os hábitos nada solidários da elite brasileira através de sua exploração secular, vamos fingir que nada está acontecendo; assim, nada precisará mudar. Oba!

Brincadeira à parte, basta lembrarmos de toda polêmica que se criou em torno das cotas para negros nas universidades públicas e teremos uma pequena amostra do tipo de preconceito racial que há no Brasil. Muito se falou, muito se debateu, algumas universidades adotaram o sistema de cotas, outras não, algumas autoridades criticaram, outras aplaudiram, mas o fato é que, de uma perspectiva mais ampla, nada vai mudar de verdade. Porque o problema não é o modo de seleção das universidades; não é o vestibular que é exclusivo: é todo o sistema! Enquanto não for oferecida uma educação de base de qualidade à população mais pobre (constituída por 70% de negros) para que eles possam competir de igual pra igual com seus concorrentes ricos (em sua maioria, brancos), de nada adiantará, isoladamente, distribuir vagas das faculdades públicas aos negros como se fosse uma esmola que se dá a um indigente na rua. Esse tipo de determinação apenas torna mais visíveis as frágeis relações sociais que regem o funcionamento da sociedade brasileira, opondo de maneira mais aberta os interesses raciais diversos e despertando o adormecido monstro do racismo.

Além disso, há mais, muito mais... Para não me perder em incontáveis exemplos sórdidos de discriminação ou em tortuosas e eternas estatísticas evidenciadoras, fico somente com a seguinte, que cabe para ambas as situações: ano passado, o Índice de Desenvolvimento Humano, ou IDH, medido pela ONU, revelou de forma embasada numericamente a discrepante distância que há entre o “Brasil Branco” e o “Brasil Negro”. Embora tenham sido constatadas melhoras em ambos os “Brasis”, eles afastaram-se ainda mais na classificação mundial. O “‘Brasil Branco’, em 1991, ocupava a 65ª ou 66ª posição entre as nações mais desenvolvidas no aspecto social; em 2000, chegou à 44ª posição. Já o ‘Brasil negro’, que em 1991 estava na 101ª ou 102ª posição, caiu em 2000 para a 104ª ou 105ª. A diferença entre os dois "países" passou de 36 para 60 posições no ranking do IDH em apenas 10 anos”. Quer dizer: só um cego (leia-se aqui: ignorante) pra não ver que o nosso queridíssimo país é, sim, uma nação rigorosamente racista e hipócrita, que consente a opressão e a segregação racial pois é conveniente a sua parcela branca e detentora do poder a postergação da exploração da população negra para o continuísmo dos privilégios dessa mesma classe exploradora e para a manutenção desse mesmo poder mesquinho.

Enfim. Eis aqui as tristes reflexões e constatações vergonhosas que faço de maneira tão simplória um dia após o Brasil “comemorar” 120 anos de abolição da escravatura.

*para maiores informações:
Ser negro no Brasil hoje;
Desigualdades;
120 anos da Lei Áurea.

domingo, 11 de maio de 2008

Isoldete

Depois de quatro anos, sete meses e doze dias de enrolação, desconversas e adiamentos, ao invés de finalmente pedir a Isoldete em casamento, o que o Zé Carlos fez foi, como um bom canalha, pôr fim ao namoro de tão longa data – fato que, diga-se de passagem, não deixou a Isoldete lá muito satisfeita. Ela, que andava animada desde que o Zé Carlos havia conseguido a promoção tão esperada no emprego – e que, nos últimos tempos, era a desculpa utilizada para não assumir um compromisso mais formal – mal pôde se controlar a tempo antes de arremessar no canalha toda a louça que via pela frente – e, mesmo assim, ainda causou um prejuízo considerável.

Também a família da namorada abandonada mal acreditava no atrevimento do Zé Carlos. Ao saber do ocorrido, o pai, que cansou de jogar porrinha e beber aquela pinga com o genro durante os jogos do campeonato carioca, ameaçou ele próprio matar aquele cafajeste, e teria mesmo cumprido sua determinação, não fosse uma artrose que mal permitia que levantasse de sua poltrona; a mãe, coitada, que já via como que encaminhada a filha mais velha, já com seus vinte e sete anos, na idade de casar, desmaiou e precisou ser levada às pressas ao Socorrão – e, depois que acordou, ficava com as mãos levantadas pro céu, clamando “Me leva, meu Pai, me leva!”.

Em meio a toda essa algazarra, a única mais lúcida era a Lucineide, irmã mais nova da Isoldete. Ela, que esteve ao lado da irmã durante toda a fase crítica de sofrimento e indignação, que a impediu de fazer qualquer besteira mais irreparável e que, apesar de ser a mais nova, era quem mais dava bons conselhos à irmã mais velha, foi quem surgiu com a proposta que, passada a raiva, mais agradou à desolada Isoldete, e que lhe trouxe também uma certa esperança.

– Vamos pedir ajuda à Mãe Titina.

Mãe Titina era uma mãe-de-santo conhecida da família que tinha um terreiro de umbanda lá pras bandas da Vila Maranhão, nos arredores do Porto do Itaqui. Tinha ficado amiga da mãe delas numa época em que ainda eram garotas, e sabiam que, de alguma forma desconhecida, tinha ajudado muito a família. A idéia de Lucineide era pedir à Mãe Titina um forte despacho que fizesse com que Zé Carlos voltasse atrás na sua decisão e reatasse o namoro com Isoldete, pedindo-a em casamento logo em seguida. Isoldete, após refletir pouquíssimos segundos, aceitou a idéia da irmã. Mas acharam melhor não dizer nada a ninguém, preferindo agir na surdina, sem despertar suspeitas.

Alguns dias após tomarem a decisão de visitar Mãe Titina, ao anoitecer, foram juntas ao encontro da mãe-de-santo. Já na Vila Maranhão, não tiveram muito problema em encontrar o terreiro, visto que fizeram uma meticulosa pesquisa nos dias que antecederam a empreitada. Como também já tinham marcado uma “consulta” com a própria, não demorou muito que estivessem em sua presença.

Mãe Titina tratou-as como uma tia trataria as sobrinhas. Sempre muito solícita, ouviu atenciosamente tudo o que Isoldete tinha a contar, e até mesmo passou a mão nos cabelos desta quando, a intervalos regulares, caía no choro, ainda abalada. E dizia: “Calma, minha filha, calma”, num tom que expressava algo do tipo “tudo vai ser resolvido”. E foi justamente isso o que ela afirmou ao final da entrevista, após dizer às duas o que precisavam fazer.

Feliz, antevendo a eficácia das palavras e das ordens de Mãe Titina, Isoldete passou uma semana atarefada, indo atrás de todos os ingredientes do despacho receitado. Tudo isso, claro, era feito às escondidas, apesar das constantes indagações de sua mãe, sempre muito viva, notando a insuspeita alegria do olhar de Isoldete, que se saía com frases do tipo “Não é nada, mãe, não posso mais sorrir?”, o que só deixava sua mãe mais curiosa. Lucineide também ajudou na medida do possível, apesar da advertência de Mãe Titina, que disse que só quem estava pretendendo pedir ajuda aos orixás era quem devia fazer os preparativos do despacho.

Após tudo pronto – galinha preta, cachaça, comida de Exu, alguidares com sangue de sei-lá-quê – , numa madrugada particularmente bela e iluminada por uma lua cheia muito parecida com que a sacerdotisa advertiu-as que daria mais poder ao despacho, elas saíram de casa pé-ante-pé, em busca de uma encruzilhada. Encontraram num lugar não muito afastado a encruzilhada perfeita para o pretendido, isolada e sombria, onde dificilmente chamariam atenções indevidas. Cumpriram os rituais umbandistas relacionados ao desejo de Isoldete e voltaram pra casa, bastante esperançosas de que tudo sairia dentro dos conformes e que, em breve, Isoldete estaria de véu e grinalda trocando alianças com seu “prícipe encantado” Zé Carlos.

Passadas quase duas semanas, as irmãs retornaram ao terreiro de Mãe Titina. Isoldete encontrava-se bastante aturdida, debilitada e, nas palavras de sua mãe, “um caco”. Contaram à Mãe Titina que tinham feito tudo de acordo com os desígnios desta, mas qual não foi a surpresa de ambas ao ficarem sabendo que Zé Carlos, poucos dias depois de realizado o despacho, estava morando com outra mulher. Ainda esperaram um tempo para ver se os efeitos desejados não estavam apenas um pouco atrasados, mas só tinham notícia de que o novo relacionamento dele estava indo de vento em popa, e então resolveram voltar.

Mãe Titina ouviu tudo com uma fleuma admirável. Ficou algum tempo em silêncio, meditando, provavelmente buscando o motivo do fracasso daquele pedido de auxílio divino. Quando o silêncio já se prolongava por um tempo constrangedor, Mãe Titina pediu desculpas a Isoldete e disse que não previra a real dificuldade do pedido. Passou-lhes um novo despacho, maior e mais pormenorizado e garantiu-lhes que em no máximo três meses Zé Carlos estaria na Igreja casando com Isoldete, ou ela não se chamava Mãe Titina. Nem que para isso tivesse que falar com Exu pessoalmente.

Incrivelmente, exatos três meses depois, numa festa que deu o que falar, diante de uma quantidade de convidados invejável, uma esfuziante e sorridente Isoldete dizia “Sim” a um suarento Zé Carlos, perante o padre que realizou o casamento de ambos, que teve Lucineide como madrinha e Mãe Titina como convidada de honra. A mãe delas estava imensamente grata a Mãe Titina pelo que havia feito por sua filha – claro, a esta altura do campeonato, aquela já estava a par de tudo – e fez questão de dar uma ajuda financeira bem maior à amiga que o estipulado pelas filhas, o que Mãe Titina recusou veementemente, alegando que era apenas uma intermediária entre os orixás e os fiéis e que elas deveriam mesmo era agradecer a Exu, não a ela.

(Faltou dizer que, quando dizia “Exu”, Mãe Titina referia-se na verdade a um negão de quase dois metros de comprimento e tórax que rivalizaria com o de gorilas, que era seu secreto guarda-costas pessoal, a quem ela pedia “auxílio” sempre que algum despacho em especial não saía conforme o previsto, como no caso do infausto Zé Carlos – que, depois da "visita de Exu", apareceu chorando à casa de Isoldete, com um buquê de rosas nas mãos, implorando que esta voltasse com ele.)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Um alerta

Há, no Universo Marvel (universo onde se passam as aventuras em quadrinhos dos personagens da Marvel Comics), no coração do Pólo Norte, um lugar chamado de Terra Selvagem, onde – sabe-se lá como – o gelo preservou e deixou imaculado pelo Homem toda uma extensão de floresta tropical nos moldes jurássicos. Isso mesmo, com homens-das-cavernas, dinossauros e outras feras pré-históricas.

Pois bem. Numa história do Homem-Aranha que eu li há muito tempo atrás, meu querido herói enfrentava uma ameaça incomum. Uma certa empresa, controlada pelos piores canalhas possíveis, estava aumentando artificialmente as temperaturas do Ártico com fins de derreter as geleiras e, dessa maneira, inundar a Terra Selvagem para poder lucrar com a exploração petrolífera que se iniciaria minutos após a inundação. Claro, no fim das contas, o nosso amigo aracnídeo, com o auxílio de tribos nativas e outros heróis, pôs fim aos planos maquiavélicos da corja de empresários vilanescos e tanto o Pólo Norte quanto a Terra Selvagem puderam respirar em paz.

Tudo isto contado acima poderia passar simplesmente por encheção de saco bloguística (que neologismo absurdo, hein?) se não fosse pela incrível capacidade da vida de, muitas das vezes, imitar a arte. Nesse caso, não nos presenteando com uma biodiversidade pré-histórica e inexplicável, mas sim com o derretimento das geleiras árticas como uma maneira de lucrar com a exploração de suas riquezas minerais.

Não, não é invenção minha, por mais inescrupuloso que possa parecer. Coloque no google a expressão “exploração do ártico” e você verá a enxurrada de páginas que irão aparecer denunciando essa perfidez, essa desumanidade hedionda, esse descaso criminoso em relação ao nosso planeta. Um deles, o Rastro de Carbono, adverte que “ao invés de se preocuparem em conter as emissões de gases do efeito estufa em suas nações, os governantes estão mais interessados nos lucros que o aquecimento global pode trazer”, um declaração que faz brotar, pelo menos em mim, uma insatisfação e uma revolta tão profunda e pungente que não pode ser descrita através de palavras.

O teor do que está acontecendo é mais ou menos o seguinte: o recuo das geleiras árticas devido ao aquecimento global está tornando possível que os recursos naturais da região norte-polar, que permaneceram todos estes anos à margem da destruição ambiental provocada pela industrialização do mundo capitalista por conta do clima inóspito, possam finalmente ser explorados pelos gananciosos governos dos países que as circundam – daí a preocupação do site citado acima. Ao invés de se preocuparem com os males indiscutíveis causados pelo efeito estufa e dedicarem seus esforços para conter seu avanço, eles estão muito mais interessados nas enormes possibilidades econômicas que se abrirão caso a região possa vir a ser explorada, ansiosos em fazer dinheiro em detrimento do meio ambiente. E essa ânsia em pôr as mãos no “ouro ártico” desencadeou, ainda por cima, uma acirrada disputa pelo controle das áreas exploráveis, onde cada um reclama para si uma parte maior do bolo: a Noruega deu a largada, iniciando as atividades da primeira instalação de exploração e processamento de gás natural e petróleo construída no Ártico, fora do Alasca; a Rússia, ainda tímida, “apenas” aprofundou o acirramento das discussões numa simbólica declaração de soberania, ao fincar uma bandeira sua no Pólo Norte; os Estados Unidos, logo atrás, já cogitam a construção de uma base operacional na região, para controlar a já expressiva frota naval que atravessa o oceano ártico em virtude do esvaecimento das geleiras oceânicas.

Esquecem-se estas inconseqüentes e obtusas nações que o Ártico pertence, primeira e unicamente, às espécies que lá vivem e à biodiversidade da região, e não a interesseiros e abjetos invasores vizinhos; que de nada vale a busca desenfreada por riquezas se isso for feito às custas da saúde da Terra, pois sem ela não temos e não somos nada; e que brincar levianamente com a Natureza nunca deixou de ser punido de maneira arrasadora e catastrófica. Pelo bem do nosso planeta – e, conseqüentemente, também nosso – , é preciso que façamos alguma coisa contra este tipo de atitude egoísta o quanto antes, já que não temos homens-aranhas ou quaisquer outros super-heróis para lutar contra estes esquivos inimigos e salvar o mundo de suas mesquinhas intenções em nosso lugar, ainda em tempo de evitar que este precedente injustificável e ignominioso possa servir de exemplo para outros estúpidos ataques ao meio-ambiente em prol de simples lucro, e que vêm tornando a degradação ambiental algo cada vez mais irreversível.

As futuras gerações, sem dúvida, agradeceriam.

*para maiores informações:
A exploração do Ártico;
O Ártico em perigo;
Ouro sob o gelo.

domingo, 4 de maio de 2008

Uma certa Ílion

Assistindo à Tróia, filme épico de 2004 que, óbvio, almeja ser a versão cinematográfica da famosa obra literária homônima (mas que deriva de outro nome para Tróia e, por isso, chama-se Ilíada), não tem como a gente não se emocionar. Mesmo para algumas pessoas que, como eu, são excessivamente puristas e sentem uma agulhada no peito a cada cena acrescentada pelo diretor ou a cada alteração da história para satisfazer os valores hollywoodianos, ainda assim, em vários momentos, sentimo-nos invadir pela deliciosa comoção de “presenciar” os feitos lendários e míticos que marcam a narrativa da guerra de Tróia.

E que narrativa... Composto de 15693 versos distribuídos arbitrária e irregularmente em 24 cantos, o poema gira em torno do herói grego Aquiles, semi-deus filho do humano Peleu e da ninfa Tétis, e de seu trágico destino, amarrado definitivamente ao desfecho da trágica guerra. Envolta numa efervescente gama de sentimentos opostos e recheada por atitudes tanto perversas quanto grandiosas, sua trajetória particular dá mote a outras inúmeras tramas e histórias paralelas, desde a participação do panteão grego no decorrer do conflito – e, diga-se de passagem, também em sua origem, pois foi por causa de uma malfadada disputa de beleza entre Athena, Juno e Afrodite, engendrada pela ardilosa deusa da discórdia, Éris, que o rapto de Helena (motivo da guerra) se tornou possível – , às agruras de outros heróis, de ambas as partes, presentes na disputa, como Ajax, Ulisses – que é o personagem principal de outro épico, ligado à Ilíada, A Odisséia – Páris, Heitor, entre outros.

Até hoje, há uma acirrada polêmica sobre quem seria(m) o(s) autor(es) deste poema épico, tido como a obra inaugural da literatura ocidental. Acredita-se que tenha sido composto por “um velho cantor, pobre e cego que, peregrinando de terra em terra, recompensava a quem o agasalhava com a declamação de seus poemas”, de nome Homero, e que teria vivido no séc. VIII a.C. Mas ele tanto poderia ter sido tão somente o compilador das diversas rapsódias quanto poderia nem mesmo ter existido. Também há a possibilidade de que ele tenha sido o autor de um poema inicial, ao qual, com o passar dos anos, foram sendo acrescentados novos versos, novos cantos, por desconhecidos poetas. (Enfim, o assunto é realmente polêmico e não me atreverei a ir além de uma exposição superficial de suas questões principais.)

Mas esta dúvida irrelevante não interfere de maneira alguma no caráter totalmente excepcional da obra, que atravessou séculos e séculos e chega hoje até nós com o mesmo impacto emocional que encantou e influenciou gerações de poetas, escritores e outros artistas ou simples e embevecidos leitores. Além, é claro, de sua importância didática e instrutiva, pois ambas as obras, A Ilíada e A Odisséia, são as principais fontes do período da história grega denominado, não por coincidência, de Período Homérico, revelando interessantes aspectos sociais, culturais e religiosos da época em que foram escritas, além de conterem uma vasta quantidade de dados e pormenores geográficos e indicações bastante verossímeis dos modelos de conduta e valores da sociedade homérica, inclusive encarnando em várias personagens o ideal heróico grego, tais como: o valor do altruísmo; o sacrifício pessoal em nome da honra; o patriotismo; a amizade sincera, etc. Platão considerava Homero o “educador da Grécia, no mais pleno sentido” e, em sua República, criticou de maneira ostensiva a exposição das fraquezas humanas (egoísmo, ódio desmedido, paixões, inveja, orgulho) como algo natural, não apenas personificadas nos heróis, mas principalmente porque até mesmo os deuses se rendiam a essas fraquezas. E se até mesmo os deuses não podiam fugir a elas, como poderíamos nós, tolos e ridículos mortais?

Discussões históricas e filosóficas à parte, é o seu valor literário e a beleza das situações enfrentadas por Aquiles e cia. o que mais me interessam e impressionam. Não vou contar aqui todos os trechos que me deixam boquiaberto, pois aí esta crônica vulgar, já desnecessariamente extensa, ultrapassaria a quantidade de laudas suportadas até mesmo pelo leitor mais dedicado. Mas não posso deixar de registrar minha sincera indignação com o atroz destino de Heitor, príncipe troiano, valoroso guerreiro, marido e pai dedicado, filho exemplar e cumpridor de todas as tarefas e obrigações perante sua pátria. Não consigo descrever com outra palavra que não seja ‘sacanagem’ o que foi feito dele: teve que enfrentar cara a cara a fúria de Aquiles – pois Heitor matara sem querer o melhor e mais amado amigo de Aquiles, Pátroclo, pensando que fosse o próprio Aquiles, levando este a dirigir toda sua vingança ao azarado assassino de seu fiel companheiro – , em conseqüência de uma guerra que só havia começado porque seu irmãozinho Páris seqüestrara a mulher de outro homem. Claro, esta luta é um dos clímaxes tanto do poema quanto do filme e ambos não seriam o mesmo sem ela, mas que foi uma baita sacanagem, ah, foi.

Outra parte muito boa e que envolve novamente as duas personagens é quando Aquiles, arrependido, chora debruçado sobre o cadáver de Heitor, desculpando-se com ele por tê-lo desrespeitado e o tratado como a um animal, arrastando-o amarrado a sua carruagem. E diz: “Desculpe-me, irmão. Em breve, nós estaremos juntos.”, numa alusão ao fato de que pressentia a morte já próxima, talvez como castigo.

Belíssimo.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Uma história irreal

O indivíduo era pobre, daqueles que o substantivo implorava de pés juntos pelo complemento ‘lascado’. Quase um mendigo. Não que ele não fosse trabalhador, muito pelo contrário. Mas seus Senhores, que o observavam naquele exato momento de uma bancada superior, exploravam-no em demasia já há algum tempo, e sem nenhum escrúpulo. Claro, os dotes físicos do indivíduo eram bastante evidentes e atrativos, sem contar algumas habilidades manuais latentes, o pendor para o bom-humor, a memória fraca e o intelecto adormecido - esta última uma qualidade imprescindível - , o que fazia d'O indivíduo um escravo perfeito. (Embora ninguém nunca se referisse a ele daquela maneira, com um termo tão “direto e forte”, como diziam, quanto aquele.)

Estava sendo julgado. Sem dinheiro para quitar as dívidas, como sempre. Parece que, quanto mais trabalhava, menos dinheiro tinha, era incrível. O salário que recebia mal dava para a subsistência da família, imensa, e ainda tinha aquela quantidade de impostos! O indivíduo nem sabia o que eram esses impostos, nem o porquê deles, mas os Senhores pegavam a grana de qualquer forma. E, naquela corda bamba de salário e dívida, sempre chegava uma hora em que O indivíduo ou tinha que alimentar sua família ou pagava as eternas dívidas. E, quando punha a família em primeiro lugar, invariavelmente vinha o julgamento.

Tentava se defender. Geralmente, os mesmos argumentos de sempre: “Vocês podiam aumentar meu salário”; “E daquela vez que eu achei um tesouro em minhas terras e vocês o roubaram?”; “Vocês não têm alma?”. E as respostas também se repetiam: “Não”, “Não lembramos”, “Não”. A ladainha dos Senhores se esmerava a cada julgamento, numa tautologia sobrenatural: era o velho e batido sermão sobre “nós lhe demos tudo que você tem”, “como você faria pra se virar sem a gente?” e “nós sempre lhe damos presentes de Natal”, com algumas poucas variações, mas com a elegância de costume. O indivíduo não tinha outra saída a não ser baixar a cabeça e concordar com tudo, resignadamente. Era isso ou enfrentar os cachorros.

Mas daquela vez, era diferente. A dívida, que já vinha se acumulando há algum tempo, chegou a níveis exorbitantes. E o indivíduo ainda teve a audácia de pedir para não pagar. Queria dar o calote! Sem dúvida, um ultraje. Era um ultraje tão ultrajante que os Senhores ficaram assustados. Os outros indivíduos poderiam seguir aquele desastrado exemplo. Onde aquela ousadia iria parar? E se ninguém mais quisesse pagar suas dívidas e se rebelassem? Era melhor tentar uma nova abordagem. Quem sabe seduzir O indivíduo com falsas promessas de crescimento? Melhorar-lhe um pouco as condições, para que ele pensasse que conquistara, no mínimo, um certo respeito por parte dos Senhores, e também para que pudesse se impor em relação aos outros indivíduos, exibindo seus “privilégios” e mostrando como era “especial”. Assim, O indivíduo talvez nunca nem reparasse na sua escravidão implícita e nunca mais atrasaria os pagamentos.

Chamaram-no para um canto e lhe disseram que não iam perdoar a dívida, que ele teria que pagar de qualquer jeito, mas lhe dariam uma ajuda. Era só ele fazer exatamente o que os Senhores mandassem, sem nunca questionar.

E assim foi feito.

*** *** *** ***

Muito tempo depois, O indivíduo volta. Vinte e um anos depois, mais precisamente. Estava sorridente e elegante. Não tanto quanto seus Senhores, claro, mas bem vestido. Também mais forte e mais corado, esbanjando até uma confiança exagerada - que os Senhores sabiam, descabida. Exalava um ar de pureza perdida, de corrupção interna. Certamente não era o mesmo de vinte e um anos atrás.

Depois da última visita, há mais de duas décadas, O indivíduo nunca mais esteve diante deles. Saiu-se muito bem com o auxílio dos Senhores. E, por isso mesmo, estes não entendiam o motivo daquela inesperada visita. O indivíduo não estava satisfeito?

- Estou, estou sim; satisfeitíssimo. Nunca minha vida foi melhor. Nossa casa agora, embora a mesma de sempre, foi reformada e pintada. Bom, pelo menos a fachada e alguns quartos. Os Senhores sabem, tive muitos, muitos filhos, muito mais do que os Senhores, somados todos, e nem sempre é possível agradar a todos. A maioria. Mas não me queixo. Escolhi alguns filhos, uns poucos privilegiados, e dei tudo do bom e do melhor pra eles, quase tanto quanto os Senhores deram para os seus próprios filhos. E assim sigo contente.

- Então, qual a razão da visita?

- É que alguns dos meus filhos, muito mal-educados, os Senhores me desculpem, ficam falando um monte de bobagens. Andam dizendo que eu sou explorado, desde sempre, que vocês me usam para seus próprios fins sem me dar o que eu mereço de verdade, que vocês me mantém à rédea curta. Chegaram até a dizer, os Senhores me desculpem mais uma vez, que eu não passo de um escravo.

- Blasfêmia! – Irritaram-se os Senhores. – Como ousam?? Nós não já demos provas mais do que suficientes de que isso não é verdade? Em todos esse anos, quantas melhoras não lhe proporcionamos? Além disso, não já publicamos vários documentos demonstrando essa melhora? Ano passado, mostramos a todos que na sua casa já se come e vive melhor, mesmo que seja para poucos. E, recentemente, os pusemos na nossa listinha de privilegiados absolutos! O que mais vocês querem?

-Eu sei de tudo isso, Senhores. E até contei pros meus filhos. A maioria deles acredita em mim e nos Senhores, a grande maioria. Mas esses mal-agradecidos que reclamam, uns poucos, justamente aqueles a quem eu resolvi dar um pouquinho mais que à enorme maioria, apesar de não tanto quanto aos meus preferidos. São eles, Senhores, o motivo da minha vinda. Não sei o que eu devo fazer para satisfazê-los. Ou calá-los.

Os Senhores sorriram, aliviados. Ah, era isso? Era muito fácil.

- Dê um pirulito a eles. Ou desconverse.

- Isso eu já fiz, Senhores. Mas eles continuaram.

- Então - os Senhores ficaram com um ar sombrio - está na hora de soltar os cachorros.