quarta-feira, 30 de abril de 2008

Uma história irreal

O indivíduo era pobre, daqueles que o substantivo implorava de pés juntos pelo complemento ‘lascado’. Quase um mendigo. Não que ele não fosse trabalhador, muito pelo contrário. Mas seus Senhores, que o observavam naquele exato momento de uma bancada superior, exploravam-no em demasia já há algum tempo, e sem nenhum escrúpulo. Claro, os dotes físicos do indivíduo eram bastante evidentes e atrativos, sem contar algumas habilidades manuais latentes, o pendor para o bom-humor, a memória fraca e o intelecto adormecido - esta última uma qualidade imprescindível - , o que fazia d'O indivíduo um escravo perfeito. (Embora ninguém nunca se referisse a ele daquela maneira, com um termo tão “direto e forte”, como diziam, quanto aquele.)

Estava sendo julgado. Sem dinheiro para quitar as dívidas, como sempre. Parece que, quanto mais trabalhava, menos dinheiro tinha, era incrível. O salário que recebia mal dava para a subsistência da família, imensa, e ainda tinha aquela quantidade de impostos! O indivíduo nem sabia o que eram esses impostos, nem o porquê deles, mas os Senhores pegavam a grana de qualquer forma. E, naquela corda bamba de salário e dívida, sempre chegava uma hora em que O indivíduo ou tinha que alimentar sua família ou pagava as eternas dívidas. E, quando punha a família em primeiro lugar, invariavelmente vinha o julgamento.

Tentava se defender. Geralmente, os mesmos argumentos de sempre: “Vocês podiam aumentar meu salário”; “E daquela vez que eu achei um tesouro em minhas terras e vocês o roubaram?”; “Vocês não têm alma?”. E as respostas também se repetiam: “Não”, “Não lembramos”, “Não”. A ladainha dos Senhores se esmerava a cada julgamento, numa tautologia sobrenatural: era o velho e batido sermão sobre “nós lhe demos tudo que você tem”, “como você faria pra se virar sem a gente?” e “nós sempre lhe damos presentes de Natal”, com algumas poucas variações, mas com a elegância de costume. O indivíduo não tinha outra saída a não ser baixar a cabeça e concordar com tudo, resignadamente. Era isso ou enfrentar os cachorros.

Mas daquela vez, era diferente. A dívida, que já vinha se acumulando há algum tempo, chegou a níveis exorbitantes. E o indivíduo ainda teve a audácia de pedir para não pagar. Queria dar o calote! Sem dúvida, um ultraje. Era um ultraje tão ultrajante que os Senhores ficaram assustados. Os outros indivíduos poderiam seguir aquele desastrado exemplo. Onde aquela ousadia iria parar? E se ninguém mais quisesse pagar suas dívidas e se rebelassem? Era melhor tentar uma nova abordagem. Quem sabe seduzir O indivíduo com falsas promessas de crescimento? Melhorar-lhe um pouco as condições, para que ele pensasse que conquistara, no mínimo, um certo respeito por parte dos Senhores, e também para que pudesse se impor em relação aos outros indivíduos, exibindo seus “privilégios” e mostrando como era “especial”. Assim, O indivíduo talvez nunca nem reparasse na sua escravidão implícita e nunca mais atrasaria os pagamentos.

Chamaram-no para um canto e lhe disseram que não iam perdoar a dívida, que ele teria que pagar de qualquer jeito, mas lhe dariam uma ajuda. Era só ele fazer exatamente o que os Senhores mandassem, sem nunca questionar.

E assim foi feito.

*** *** *** ***

Muito tempo depois, O indivíduo volta. Vinte e um anos depois, mais precisamente. Estava sorridente e elegante. Não tanto quanto seus Senhores, claro, mas bem vestido. Também mais forte e mais corado, esbanjando até uma confiança exagerada - que os Senhores sabiam, descabida. Exalava um ar de pureza perdida, de corrupção interna. Certamente não era o mesmo de vinte e um anos atrás.

Depois da última visita, há mais de duas décadas, O indivíduo nunca mais esteve diante deles. Saiu-se muito bem com o auxílio dos Senhores. E, por isso mesmo, estes não entendiam o motivo daquela inesperada visita. O indivíduo não estava satisfeito?

- Estou, estou sim; satisfeitíssimo. Nunca minha vida foi melhor. Nossa casa agora, embora a mesma de sempre, foi reformada e pintada. Bom, pelo menos a fachada e alguns quartos. Os Senhores sabem, tive muitos, muitos filhos, muito mais do que os Senhores, somados todos, e nem sempre é possível agradar a todos. A maioria. Mas não me queixo. Escolhi alguns filhos, uns poucos privilegiados, e dei tudo do bom e do melhor pra eles, quase tanto quanto os Senhores deram para os seus próprios filhos. E assim sigo contente.

- Então, qual a razão da visita?

- É que alguns dos meus filhos, muito mal-educados, os Senhores me desculpem, ficam falando um monte de bobagens. Andam dizendo que eu sou explorado, desde sempre, que vocês me usam para seus próprios fins sem me dar o que eu mereço de verdade, que vocês me mantém à rédea curta. Chegaram até a dizer, os Senhores me desculpem mais uma vez, que eu não passo de um escravo.

- Blasfêmia! – Irritaram-se os Senhores. – Como ousam?? Nós não já demos provas mais do que suficientes de que isso não é verdade? Em todos esse anos, quantas melhoras não lhe proporcionamos? Além disso, não já publicamos vários documentos demonstrando essa melhora? Ano passado, mostramos a todos que na sua casa já se come e vive melhor, mesmo que seja para poucos. E, recentemente, os pusemos na nossa listinha de privilegiados absolutos! O que mais vocês querem?

-Eu sei de tudo isso, Senhores. E até contei pros meus filhos. A maioria deles acredita em mim e nos Senhores, a grande maioria. Mas esses mal-agradecidos que reclamam, uns poucos, justamente aqueles a quem eu resolvi dar um pouquinho mais que à enorme maioria, apesar de não tanto quanto aos meus preferidos. São eles, Senhores, o motivo da minha vinda. Não sei o que eu devo fazer para satisfazê-los. Ou calá-los.

Os Senhores sorriram, aliviados. Ah, era isso? Era muito fácil.

- Dê um pirulito a eles. Ou desconverse.

- Isso eu já fiz, Senhores. Mas eles continuaram.

- Então - os Senhores ficaram com um ar sombrio - está na hora de soltar os cachorros.

domingo, 27 de abril de 2008

Estranho espelho

Os cronistas de jornal ou de revista são uns chatos. Mesmo aqueles que se direcionam a assuntos mais específicos, seja por um certo conhecimento acadêmico ou mera experiência. Eles não passam de pedantes intrometidos que ficam nos enchendo periodicamente com sermões e balelas, dando pitacos e opiniões sobre os mais variados assuntos, desde as inconstâncias das bolsas de valores ao redor do globo, até os acontecimentos nas partidas de futebol pelo mundo afora, passando por temas políticos, sexuais, filosóficos, artísticos, e por aí vai.

Já os cronistas de blog, ah, esses são os piores. Pelo menos, os cronistas de jornais ou revistas ainda são, óbvio, requeridos pelos jornais e revistas da qual fazem parte e, na maioria das vezes, também pelos leitores das mesmas. São colaboradores profissionais e muitos até recebem salário pelo exercício de tal profissão. Os cronistas de blog, não: simplesmente apropriam-se de algum sítio gratuito oferecido na internet e que é próprio para isso, os blogs, e então passam a propagar seus “conhecimentos” e pontos de vista acerca de uma gama de assuntos ainda mais variada que a dos cronistas profissionais, semanalmente, para qualquer desavisado ou desocupado (ou ambos) que esteja navegando à toa pela blogosfera. Quando não, além de crônicas regulares, também publicam (ou postam, termo que designa as publicações do tipo) textos líricos, sejam estes poesias de qualidade discutível ou histórias de variados tipos e estilos.

Como já extensamente citado acima, a maravilha que permite que estes escritores obcecados e impertinentes possam passar sua sabedoria a todos são os blogs. O blog é esta fantástica ferramenta de comunicação, a mais nova coqueluche da vasta-teia-do-mundo. Surgiu em meados de 1997, através do blogueiro original, Jorn Barger, que criou o primeiro dos blogs, o robotwisdom, e que também cunhou o termo weblog (em inglês, web: rede, a internet como um todo; log: diário). Depois, um tal de Peter Merholz, também um dos primitivos blogueiros, definiu o termo como o conhecemos hoje, colocando em sua página particular o anagrama em forma de trocadilho “we blog” (algo como “nós blogamos”), que passou a ser utilizado em larga escala por todos os blogueiros da época e autenticou a criação do verbo inglês “to blog”.

Num boom que nenhum desses futurólogos e vaticinadores tecnológicos de plantão pôde prever, os blogs tomaram conta do mundo. Eles, que no princípio não passavam de simples diários pessoais expostos aos amigos ou a outros blogueiros, cuja influência e importância para muitos especialistas não passava de simples euforia adolescente e passageira, multiplicaram-se aos borbotões e, hoje, dobram de quantidade a cada seis meses. Como tudo que se multiplica de maneira assustadora, eles também mutaram e evoluíram, tanto em forma quanto em conteúdo e, apesar da maioria ainda se atrelar ao significado original, muitos alteraram sua motivação e se tornaram os chatos cronistas da nova geração, com sua propensão para tons líricos, jornalísticos, filosóficos, poéticos, etc.

Claro, esses “especialistas” não levaram em consideração a massa de indivíduos desprovidos de meios de expressar sua opinião que se sentiam marginalizados da sua necessidade de emitir juízos de valor a respeito da realidade que nos cerca; não conceberam a enormidade de escritores, poetas e jornalistas potenciais espalhados pelos quatro cantos, frustrados pela impossibilidade imposta de exercerem a profissão de seus sonhos, que encontraram nos blogs o mecanismo ideal para tal realização, possibilitando a expansão geométrica de seus desvarios literários ou relatos jornalísticos e o surgimento desse “novo gênero” de escritores, os cronistas de blog.

Fazer o quê. Se fomos imperscrutavelmente tragados pela magia da Literatura e misteriosamente levados ao feérico mundo da arte da escrita, e agora encontramos um meio legal e legítimo de desfrutarmos dos inebriantes prodígios da realização de um sonho - ainda que de forma restrita e, muitas vezes, isolada -, não caberia a nenhum filósofo ou especialista ou crítico ou qualquer cronista de jornal/revista julgar-nos. Somos todos provavelmente filhos do mesmo Deus e temos o mesmo direito comum de opinarmos e extravasarmos nossos oprimidos e encapsulados sentimentos, frutos de uma existência incompreensível e extraordinária, entremeada de alegrias, manipulações, dores, temores e sonhos.

Fomos enfeitiçados. E o feitiço, embora incerto, é delicioso. Desculpem-nos os desgostosos, mas prosseguiremos.

sábado, 26 de abril de 2008

Brasil brasileiro e Estados Unidos estadunidenses

Enquanto nos Estados Unidos – nação que em sua última eleição deixou escapar rastros de uma fraudulenta contagem de votos – a democracia deu a volta por cima e agora dá show, com dois candidatos democratas, uma mulher (nossa!) e um negro (meu Deus!), numa corrida partidária sem precedentes pela vaga (ainda) de candidato oficial à presidência, o Brasil, infelizmente, envereda pelo caminho contrário, dando oportunidades diversas à proliferação da corrupção, à canalhice e à conquista desenfreada de poder em detrimento dos princípios. Não bastasse a oposição geográfica e econômica, acrescenta-se mais essa dicotomia entre os dois países.

Bom, não que eles situem-se nos extremos exatos e opostos de fortalecimento da democracia. Nem o Brasil deixou-se corromper totalmente pela “malandragem” e pelo deixapralaismo, nem “a América” abandonou os seus hábitos sabidamente culturais de mentiras em prol do imperialismo e imperialismo em prol de mentiras. Mas, para fins de comparação, a situação brasileira deixa muito a desejar.

Pobre Brasil... No dia em que sua mais recente constituição foi promulgada, a americana havia recém completado duzentos e um anos. Duzentos e um! Assim, fica difícil mesmo competir. A constituição dos Estados Unidos foi aprovada definitivamente em 17 de setembro de 1787, com a bênção de Thomas Jefferson e os demais “Pais” da República americana. De lá pra cá, a estrutura política estadunidense permaneceu inalterada, mudando apenas as visões das sociedades das suas respectivas épocas e o melhor modo quanto à aplicação da democracia. Além disso, nossos irmãos continentais foram peça fundamental em duas guerras mundiais, assassinos em massa de vietnamitas e pólo vencedor da Guerra Fria, o que deixou caminho favorável para o derradeiro alastramento do capitalismo (sua principal fachada), tornando-se, enfim, a potência dominante.

A trajetória brasileira foi, contrariamente à americana, bastante atribulada - aliás, como as demais trajetórias políticas dos países da América latina. A nossa “independência” nos tirou das garras de Portugal e nos jogou nos braços dos famigerados ingleses – que, afinal, já eram nossos donos mesmo, visto que mandavam nos portugueses. Após o enfraquecimento da Inglaterra com as duas guerras mundiais, nossos patrões-mor tornaram-se os Estados Unidos, que nos trouxeram um breve período democrático como sucessão à República Velha e à Era Vargas, mas que rapidamente patrocinaram a chegada da ditadura militar no país, com medo da “ameaça comunista”. Depois, quando a ditadura não mais era necessária, já que o socialismo russo mostrava inequívocos sinais de decadência, permitiu-se que a democracia retornasse ao nosso território. Timidamente, mas já era um começo.

Os dois países iniciaram a década passada com otimismo e uma boa dose de pensamento positivo. Para os americanos, era a época de desfrutar pela primeira vez um mundo em que não havia nenhuma outra nação a temerem, em que eles podiam ser chamados definitivamente de líderes mundiais. A imagem que ficaria deles desse período era a do democrata Bill Clinton como bom mocinho, símbolo de um país altruísta e defensor da liberdade. Já para os brasileiros, era a oportunidade de poder se reconciliar com a democracia, esta nossa amiga de longa data, afastada de maneira tão terrível e traumática da nossa gente, e por tanto tempo. Nem o fato de que, na primeira eleição em décadas o povo brasileiro elegeu um patife como presidente – que logo sofreu um merecido impeachment – pôde de alguma maneira manchar as conquistas tão almejadas pela nação e, dependendo da pessoa, poderia mesmo se tornar uma nota de rodapé. Desse tempo, a imagem mais marcante é provavelmente a da implementação do Plano Real pelo presidente Fernando Henrique, que trouxe uma nova perspectiva para a economia brasileira, assombrada por uma época não tão longínqua de moratória, congelamento de preços e inflação.

E chegamos, enfim, ao século 21, que trouxe certas desilusões à tona – e algumas seqüelas. A máscara de filantropia e bom mocismo dos EUA caiu, assim como sua respectiva popularidade no mundo, com a subida de George W. Bush ao mais alto posto americano, revelando um país mesquinho e autoritário, sedento de poder e partidário ativo de um imperialismo desmedido. Uma nova guerra no Iraque, à base de argumentos, no mínimo, discutíveis, foi o de menos. O que chocou mesmo foi a notícia de que o Sr. Bush, arauto do Apocalipse, recusou-se a assinar o protocolo de Kioto, o que equivaleu a admitir que os americanos se lixam (sem trocadilhos) para os problemas ambientais, principal preocupação da atualidade. Pelo menos, com o auspicioso fim da era Bush, o povo americano parece estar arrependido das recentes atuações de seu país e demonstra uma atitude de mudança, participando ativamente do processo eleitoral deste ano e, ao menos para boa parte da população, depositando suas esperanças em candidatos com imagens e promessas bem mais próximas das da era Clinton.

E quanto ao Brasil? Bom, para o Brasil, o novo século também não foi muito bondoso. Começamo-lo com um novo sentimento de esperança, algo poucas vezes experimentado pelo nosso povo: Lula no poder! Luís Inácio Lula da Silva, ex-torneiro-mecânico e famoso líder sindical grevista, o eterno candidato do PT, partido que historicamente lutou pelas causas do povo e dos trabalhadores e sempre foi uma ilha de ética no mar de lama de Brasília, havia finalmente se sagrado vencedor das eleições presidenciais de 2002 e iniciaria quatro anos de mandato. Mas a esperança rapidamente deu origem a uma decepção generalizada entre todos aqueles que sonham com algo mais que um Bolsa-Família, pois Lula, o governo e o PT sucumbiram ao festival de corrupção que assola o corpo político brasileiro e se renderam aos encantos da demagogia, do populismo e da politicagem, caindo como cães famintos nos cofres públicos, fossem com mensalões – como antes –, fossem com cartões corporativos – como agora. Fosse com alianças indignas com os principais corruptos do país (leia-se aqui: Sarney e seus equivalentes regionais), fosse com a distribuição arbitrária e interesseira de cargos de todos os escalões do governo com o propósito de obter maioria no Congresso, o fato é que o governo Lula corrompeu-se por completo, deixando uma sensação palpável, indubitável e desagradável de que o Brasil não tem jeito, que jamais conseguiremos fugir à corrupção e que seremos para sempre uma nação de miseráveis e ignorantes, sonhadores e malandros, eternamente presos àquele velho clichê do que poderia ter sido, e que não foi.

É bem povável que estes destinos tão opostos tenham origem nas motivações por trás dos movimentos imigratórios europeus à época do descobrimento do Novo Mundo, que lançaram a sua porção setentrional uma leva de imigrantes com a firme vontade de recomeçar suas vidas e constituir um novo lar, puritanos eficientes e resolutos, fugidos da perseguição implacável da Igreja Católica contra os protestantes; enquanto que para o Centro e o Sul trouxeram uma corja de bandidos, ladrões e canalhas de toda ordem, vagabundos e pusilânimes diversos em busca de novas empreitadas sórdidas ou apenas ambiciosos e cruéis exploradores com ânsia de enriquecer a qualquer custo. Mas isso não serve mais como desculpa para uma inalterável e inexorável trajetória de dependência, subserviência, apatia e total desorganização brasileira, em relação aos Estados Unidos ou quaisquer potências hegemônicas de outrora. Os bons exemplos americanos estão aí para serem seguidos. Basta dessa cultura vulgar e desprezível de malandragem e vocações rítmicas, que são progenitoras do atraso, da miséria e da exaltação do vício e da devassidão. A esperança, (in)felizmente, ainda não morreu e é necessário somente vontade, coragem e trabalho duro (somente?!) para mudar a situação atual e transformar radicalmente o futuro do nosso país, roubado do sonho antigo de grandeza pela realidade que se nos apresenta. E essa cartilha deve ser seguida ao pé da letra, sem medo ou inseguranças, mesmo que o futuro do nosso país esteja indiscutivelmente interligado ao dos estadunidenses e isso signifique talvez uma guerra nuclear ou caos total da natureza, o que vier primeiro.

Mas isso já é uma outra história.

domingo, 20 de abril de 2008

Descuidos (ou Pai e filho)

É noite, por volta de umas oito, nove horas. O pai encontra a casa procurada e estaciona o carro na entrada, sem desligar o motor e dá aquela buzinada clássica. Passados uns poucos minutos, sem perceber nenhum movimento ou barulho em resposta, buzina novamente. Quando já pensa em pegar o celular e ligar para o filho, eis que este finalmente surge, saindo pelo portão da frente da casa com um outro garoto, provavelmente o dono da casa. Ou o filho do dono, como pensa o pai. O filho se despede e entra no carro com ímpeto, jogando de qualquer maneira a mochila que trazia consigo ao banco de trás.

– Pô, pai, não entendi... – reclama o filho, irritado. – Eu já tinha dito pra mamãe que ia passar o fim de semana na casa do Marcão. Por que você fez questão de vir me buscar de qualquer jeito então?

O pai, nada.

– Tava todo mundo aí – continua o filho – o Gatuso, o Bolinho, o Ricardo, o Rodrix, todo mundo. Se eu já tinha avisado, não sei porque você teve que vir me buscar, não sei. Qual foi o problema?

O pai permanece em silêncio.

– Que foi? – Estranha o filho. – Você não vai falar nada, não?

O pai pára o carro no gramado de uma pracinha e o desliga, deixando no ar apenas o som bem baixinho do cd player, quase um sussurro. O filho o observa, já levemente apreensivo, mas nada mais fala. Após alguns instantes, o pai abre o porta-luvas e pega um bolo de papel, como que amassado.

– Precisamos ter uma conversa, meu filho – começa o pai. – Achei isso nas suas coisas – diz, pondo em seguida o bolo de papel na mão de seu filho.

O filho gela. Ou quase isso. Não era um simples bolo de papel amassado. Era um bolo de papel amassado com recheio de maconha. Um paradão. Desconcertado, o filho tenta ganhar tempo.

– Você mexeu nas minhas coisas?

– Não tente desconversar – adverte o pai, sério. – Entrei no seu quarto pra saber onde você tinha posto a Veja dessa semana e encontrei isso ao lado do seu ventilador. E nem adianta dizer que não é seu, porque eu sei que é.

O filho, nada.

– Há quanto tempo você está fumando maconha?

O filho continua em silêncio, sem esboçar reação alguma, aparentemente ainda olhando para o conteúdo em sua mão.

– Vou ter que conversar com sua mãe – prossegue o pai. – Ela tem que saber disso, tem que saber que o filho agora é um drogado, que usa drogas escondido e sabe-se lá o que mais. Não vou mais permitir que você ande com esses seus amigos, esse monte de delinqüentes, esses...

– Pai – interrompe o filho. Após alguns segundos, continua. – Eu também tenho uma coisa pra falar com você.

O pai, interrompido e ligeiramente confuso, observa o filho, enquanto este põe a mão no próprio bolso e de lá puxa seu telefone celular. O filho mexe em alguns botões e, em seguida, passa o telefone para o pai.

– Um dos meus amigos bateu essa foto no fim-de-semana passado e me mostrou ainda há pouco, lá na casa do Marcão. Se quiser ver as outras, é só apertar a setinha pra baixo.

O pai gela. Ou mais que isso. Sua fisionomia não se altera, mas seu coração está bem mais acelerado, não pode acreditar no que vê. Nas fotos, ele aparece ao lado de uma mulher bem mais jovem que ele, dançando e bebendo no bordel em que tinha ido com dois amigos na sexta-feira passada. Numa das fotos, ele beija a moça.

– Quem bateu essas fotos? – Pergunta o pai, em tom contido.

– Isso eu não posso dizer – responde-lhe o filho, algo irônico. – Meu amigo, que passou as fotos pro meu celular depois, pediu pra não ser identificado. E também não adianta dizer que não é você, a mamãe bem que ia reconhecê-lo...

– Meu filho – pasma-se o pai. – você está me chantageando?

– Não, pai, claro que não... – nega sonsamente o filho, de um jeito já bem menos tenso. – Apenas queria lembrá-lo que ambos temos em comum assuntos que preferimos que ninguém, principalmente a mamãe, fique sabendo.

O pai, entendendo o jogo do filho, pensa por alguns segundos. A mulher não precisa mesmo saber que o filho anda fumando unzinho de vez em quando, ele mesmo (o pai) pode dar conta de vigiá-lo e evitar que aquilo saia do controle. Não valia a pena correr o risco de que o filho mostrasse a sua esposa (do pai, claro, não do filho) umas fotos em que ele se engraçava com outra mulher e que nada significavam. O remorso já vinha corroendo todos os seus órgãos desde aquele fatídico dia, não era necessário pôr o casamento numa situação delicada dessas. Quanto ao fato de o filho estar chantageando-o, que mal havia? Pelo menos, aquela esperteza comprovava que o filho ia se dar bem na vida. Talvez como deputado.

– Bem, é verdade, sua mãe não precisa mesmo ficar sabendo de nada – concorda o pai, em tom ameno e cúmplice, tranqüilizando o filho. – Afinal de contas, esses são assuntos de homem, não é mesmo, e uma mulher só ia atrapalhar. Guardemos esses segredos entre pai e filho.

– Exatamente – repete o filho, sorrindo, olhando nos olhos do pai – guardemos esses segredos entre pai e filho.

– Mas tem uma coisa – complementa o pai – você tem que apagar essas fotos.

– Tá bom – aceita o filho. – Mas só se você deixar eu ficar com meu paradão.

– Não deixo nada – diz o pai, sério, encarando o filho. Depois sorri. – Bola logo é um beck aí, uma bomba, que hoje eu quero ficar é doidão.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Isabella

Amanhã, dia 18 de abril, a menina Isabella faria seis anos. Não tenho certeza se seria na casa de seu pai ou de sua mãe, cercada por amiguinhos de escola ou apenas pela família, nem sei se haveria uma festa ou não. Só sei que, amanhã, ela estaria vivendo aquele conhecido clima de felicidade e harmonia que acomete aos mais jovens nos dias de seus aniversários, dando sorrisinhos sem motivo, ouvindo cantarem “Parabéns pra você” em vários lugares, talvez até com uma certa vergonha “sem-vergonha” e chegando a mais uma etapa nessa escalada maluca e imperscrutável que é a vida. Mas não mais.

Claro que você já sabe por que ela nunca terá sua festinha de seis anos. Se não esteve trancado num baú ou morando numa caverna durante as últimas duas semanas, sem contato com a civilização, você deve estar por dentro do caso que extrapolou as barreiras regionais de indignação e comoveu o país inteiro: o assassinato de Isabella Nardoni, espancada e, em seguida, arremessada da sacada do sexto andar do prédio em que morava, em São Paulo. Ela ainda foi resgatada com vida, mas não resistiu aos ferimentos decorrentes da queda e morreu a caminho do hospital. Daí pra frente, o que se viu foi o já manjado esquema de situações esdrúxulas e atuações abjetas que geralmente ocorrem nos momentos de comoção nacional, pelo menos ao analisarmos o recente passado brasileiro.

As autoridades, pra variar, reprisaram o mesmo velho e batido show de incompetência e despreparo, metendo os pés pelas mãos, às vezes em declarações precipitadas que em nada ajudavam as investigações, noutras em equivocadas ações investigativas, que transformaram um caso simples – pelo menos do ponto de vista da criminalística – num embaralhado e insolúvel quebra-cabeças. A polícia, em especial, esmerou-se no festival de asneiras usuais e deu um show à parte, desleixando-se na obtenção de pistas e objetos imprescindíveis à perícia na elucidação do caso ­– como as roupas utilizadas pelo pai e pela madrasta, principais suspeitos, no dia do crime – e não observando aspectos cruciais para determinação dos culpados. Fatos como a localização do crime, sexto andar de um prédio, reduziriam enormemente o foco das investigações, pois, se nenhuma entrada foi forçada, o assassino sem dúvida entrou pela porta da frente com a chave, o que diminuiria sensivelmente a quantidade de possíveis suspeitos e deixaria mais fácil e averiguável a teoria de uma terceira pessoa. Mas, ao que parece, passaram despercebidos.

Como no caso do menino João Hélio, aquele garoto que foi arrastado pelo lado de fora do carro de seus pais – roubado por uma dupla de ladrões apressados – preso ao cinto de segurança, a mídia caiu em cima. Com o sensacionalismo de sempre, cobriu cada passo das investigações: interrogou vários dos envolvidos com o caso, fossem estes parentes, policiais ou apenas testemunhas; criou e debateu diversas teorias sobre o que teria ocorrido no dia do crime, muitas vezes dedicando programas inteiros a especulações desse tipo ou matérias sobre o caso; invadiu e desrespeitou a privacidade dos familiares num momento como este, de todas as formas possíveis, em nome de uma fingida e forçada indignação que, na melhor das hipóteses, aproveitou-se da tragédia para atingir a sensibilidade do povo e obter mais audiência – e, na pior, mesclou esta intenção com outra, mais vil e cretina, de atrair toda a atenção pública para o caso, enquanto os podres da CPI dos cartões corporativos eram varridos pra debaixo do tapete.

A população, atiçada pelo sensacionalismo da imprensa, não se fez de rogada e logo se envolveu por completo no drama que se desenrolou após a morte de Isabella. Muitos já tinham opinião formada e cristalizada minutos após tomarem conhecimento do caso. Outros, como algum dos convidados de quaisquer dos programas que debatiam o tema, metiam-se em turbulentas e inúteis discussões sobre possíveis maneiras de descobrirem o(s) culpado(s), brilhantes defesas de suas próprias deduções geniais ou simples troca de farpas com pretexto nobre. No dia em que a polícia fez cumprir o habeas corpus concedido pela Justiça ao casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá – respectivamente, pai e madrasta da menina – muitos curiosos compareceram ao local de soltura, dentre estes, vários que empunhavam pedras, à espera de uma oportunidade de “fazer justiça” com as próprias mãos, como nos tempos bíblicos. (Mais impressionante é saber que há tempos não se move um dedo contra as falcatruas e “faltas de decoro” do Congresso Nacional e do Governo. Entretanto, quando o assunto é outro...)

Mas tudo isso é vão, toda esta superficial e pretensiosa análise é desnecessária, de nada adianta. E nem a solução do caso e a conseqüente punição dos culpados faria alguma diferença. O que realmente importa é que amanhã, a pequena Isabella completaria seis anos de idade, e estaria feliz como nunca, iluminando o ambiente em que estivesse com seu sorriso ingênuo e contagiante, como vimos nas suas tão exploradas fotografias veiculadas nos meios de comunicação. E nós, tolos e vazios, meros objetos de manipulação midiática e sei lá o que mais, nem saberíamos de sua existência – para o bem dela. E a bela Isabella continuaria a brincar com seus amiguinhos, a se maravilhar com as belezas do mundo, a aprender as duras lições que a vida ensina, a chorar seus desencantos e desilusões, a crescer de corpo e de mente e a seguir seu próprio destino: único, indefinível e cheio de possibilidades.

Mas não mais.